Cinco maneiras de dizer a verdade (1).
Bertolt Brecht
Bertolt
Brecht (1898-1956): poeta e dramaturgo alemão.
Publicado
anteriormente em: http://agenorbevilacquasobrinho.blogspot.com/2020/05/cinco-maneiras-de-dizer-verdade-bertolt.html
Cinco maneiras de dizer a verdade (1). Bertolt Brecht
Cinco dificuldades em escrever a
verdade
Quem, nos dias de hoje, quiser
lutar contra a mentira e a ignorância e escrever a verdade, vai ter de superar
ao menos cinco dificuldades. Deve ter a coragem de escrever a verdade,
embora ela se encontre escamoteada em toda parte; deve ter a inteligência
de reconhecê-la, embora ela se mostre permanentemente disfarçada; deve entender
da arte de manejá-la como arma; deve ter a capacidade de escolher em
que mãos ela será eficiente; deve ter a astúcia de divulgá-la entre os escolhidos.
As dificuldades são grandes para os escritores que vivem sob o fascismo, mas
existem também para aqueles que fugiram ou se asilaram. E mesmo para aqueles
que escrevem em países de liberdade burguesa.
1) A coragem
de escrever a verdade
Entende-se que o escritor deva
escrever a verdade no sentido em que não deve suprimi-la ou silenciá-la, nem
escrever inverdades, nem curvar-se perante os detentores do poder, muito menos
enganar os fracos. Naturalmente, é muito difícil não se curvar diante dos poderosos
e é muito vantajoso enganar os fracos.
Desagradar os proprietários quer dizer renunciar à posse de bens.
Renunciar ao pagamento de determinado trabalho significa, em certas
circunstâncias, renunciar ao trabalho. Recusar a glória dos potentados quer
dizer renunciar de vez à glória. Isso requer coragem.
Os tempos de máxima opressão são aqueles em que quase sempre se
fala de causas grandiosas. Em tais épocas, é necessário ter coragem para falar
de coisas pequenas e mesquinhas, como a comida e a moradia dos que trabalham,
no meio do palavreado homérico em que o espírito de sacrifício é agitado como
estandarte glorioso.
Quando se derramam homenagens sobre os camponeses, é corajoso
falar em máquinas agrícolas e forragem barata, que tornarão mais fácil seu tão
louvado trabalho. Se todas as emissoras berram que o homem sem cultura e sem
instrução tem mais valor que o instruído, então é corajoso perguntar: tem valor
para quem?
Se falam de raças inferiores e superiores, então é corajoso
perguntar se não é a fome, a ignorância e a guerra que provocam deformações
graves.
Também é preciso ter coragem para falar a verdade sobre nós
mesmos, sobre os vencidos. Muitos dos que estão sendo perseguidos perdem a
capacidade de reconhecer seus erros. A perseguição parece-lhes a maior
injustiça. Os perseguidores, porque perseguem, são os maus, e os perseguidos
terminam caçados por causa de sua bondade. Mas essa bondade foi derrotada,
impedida, vencida. Então era uma bondade fraca, uma bondade ruim,
insustentável, desmerecedora de confiança. Porque não é admissível aceitar a
fraqueza como parte intrínseca da bondade, assim como se constata a umidade na
chuva. Dizer que os bons são vencidos não porque sejam bons, mas porque são
fracos, isso requer coragem. Naturalmente, a verdade deve ser dita na luta
contra a mentira e não cabe disfarçá-la em algo generalizado, sublime, sujeito
a múltiplas interpretações. A inverdade é feita precisamente desse caráter
genérico, sublime e ambíguo.
Se de alguém se diz que falou a verdade, é porque, antes, alguns
ou muitos ou um só falaram algo diferente, uma mentira ou qualquer
generalidade. Ele, porém, falou a verdade: algo prático, efetivo, inegável,
aquilo de que se tratava. Não é preciso grande coragem para queixar-se da
maldade do mundo, do triunfo da crueldade em geral, e acenar com o triunfo do
espírito e uma pane do mundo onde isso ainda é permitido. Aí muitos se
comportam como se fossem alvo para canhões. Na realidade, estão servindo apenas
como alvo para binóculos de teatro. Proclamam suas exigências vagas perante uma
plateia ingênua. Exigem uma justiça em geral pela qual jamais fizeram coisa
alguma; uma liberdade genérica, para obter uma parte do que já há muito tempo
foi partilhado com eles. Acham que verdade é o que soa bem. Se a verdade vem
expressa em cifras, como algo árido, e consiste em fatos que demandaram esforço
e estudo para serem discernidos, então essa verdade não lhes serve, não
consegue entusiasmá-los. Têm apenas o comportamento exterior dos que dizem a
verdade. Sua desgraça é ignorar a verdade.
2) A inteligência de reconhecer a verdade
Uma vez que é difícil escrever a verdade porque em toda parte ela
vem sendo suprimida, muitos pensam ser questão de foro íntimo escrever a
verdade ou não. Acreditam que somente é necessário coragem. Esquecem a segunda
dificuldade: a do descobrimento da verdade. De forma alguma pode-se dizer que é
fácil encontrá-la.
Para começar, já não é fácil decidir qual verdade merece ser dita.
Assim, por exemplo, afunda-se agora, perante o mundo inteiro, na barbárie mais
extrema, uma nação após a outra.
Ademais, todo o mundo sabe que a guerra interna, conduzida com uma
ferocidade espantosa, qualquer dia poderá ser transformada em guerra externa,
capaz de reduzir nosso continente a um monte de escombros.
Isso sem dúvida é uma verdade, mas naturalmente existem ainda
outras verdades. Por exemplo, não deixa de ser verdade que as cadeiras têm
assento ou que a chuva cai de cima para baixo. Muitos poetas escrevem verdades
dessa espécie. Parecem pintores que pintam naturezas-mortas nas paredes de
navios que estão naufragando.
Nossa
primeira dificuldade não existe para eles e, mesmo assim, têm a consciência
tranquila. Não perturbados pelos detentores do poder e igualmente insensíveis
aos gritos dos violentados, dão suas pinceladas e fabricam seus quadros. O
absurdo de sua conduta produz neles um “profundo pessimismo”, que vendem por
bom preço, recompensa que de fato deveria ser dada a outros, e não a esses
“mestres”. Mesmo assim, não é tão fácil reconhecer em suas verdades aquela
simples verdade sobre as cadeiras ou a chuva, já que soam diferente, como se
falassem verdades sobre assunto de real importância, porque a atividade
artística consiste em realçar a importância de qualquer objeto. Somente
analisando minuciosamente, depreende-se que eles apenas dizem: uma cadeira é
uma cadeira, e ninguém pode se revoltar contra o fato de a chuva cair para
baixo.
Essa gente é incapaz de achar as
verdades que devem ser escritas. Outros se preocupam realmente com as tarefas
mais em evidência. Não se amedrontam perante os donos do poder e não têm medo
da pobreza. Mesmo assim não podem descobrir a verdade. Faltam-lhes
conhecimentos. Estão cheios de velhos preconceitos, de famosos preconceitos já
formulados de maneira bonita em tempos antigos. O mundo é demasiadamente
complicado para eles. Não conhecem os fatos e não enxergam as conexões. Além da
convicção, são necessários conhecimentos, que podem ser adquiridos, e métodos,
passíveis de ser apreendidos. É necessário para todos os escritores, nessa época
de grandes complicações e grandes alterações, conhecer a dialética
materialista, a economia e a história. Esses conhecimentos podem ser adquiridos
em livros e compêndios, quando existe vontade e diligência. Pode-se descobrir
muitas verdades da maneira mais simples, partes de uma verdade ou de fatos que
levam ao descobrimento da verdade. Para quem quer pesquisar, o método é bom,
mas também é possível achá-la sem método, mesmo sem procurar. Todavia, se se
consegue assim, de maneira casual, é quase impossível alcançar uma verdade
capaz de oferecer aos homens um caminho para a ação. Gente que somente descreve
pequenos fatos não é capaz de manejar as coisas deste mundo. Mas a verdade só
tem esse objetivo, nenhum outro. Essa gente não é competente para escrever a verdade
e atender a suas exigências. Se alguém está disposto a escrever a verdade e é
capaz de reconhecê-la, restam três dificuldades.
3) A arte de tornar a verdade manejável como
uma arma
A verdade deve ser
dita por causa das consequências que dela resultam para a conduta. Exemplo de
uma verdade, da qual não se deve tirar conclusões erradas, é a de que alguns
países chegaram a um estado lastimável causado pela barbárie. De acordo com
essa opinião, o fascismo é uma onda de barbárie que desabou como uma catástrofe
da natureza sobre alguns países. Segundo essa opinião, o fascismo forma uma
terceira força ao lado (e acima) do capitalismo e do socialismo; nem o
movimento socialista nem o capitalismo poderiam existir sem o fascismo etc.
Essa é, naturalmente, uma afirmação fascista, uma capitulação perante o
fascismo. O fascismo é uma fase histórica em que o capitalismo entrou — nesse
sentido, é uma coisa nova, porém ao mesmo tempo velha. O capitalismo existe nos
países fascistas somente na forma de fascismo, e este pode ser então combatido
em seu conteúdo capitalista, capitalismo da maneira mais desnuda, mais
descarada, mais sufocadora, mais fraudulenta. Como poderá alguém dizer a
verdade sobre o fascismo, ao qual é contrário, sem querer falar do capitalismo
que o produz? Que aspecto prático poderá ter essa “verdade”? Os que são contra
o fascismo, sem tomar posição contra o capitalismo, os que lastimam a barbárie
como resultado da barbárie parecem ser pessoas que querem comer sua porção de
vitela sem abatê-la. Querem comer a vitela, mas não querem ver o sangue.
Contentam-se em saber que o açougueiro lava as mãos antes de trazer a carne.
Não são contra as relações de propriedade que produzem a barbárie. São apenas
contra a barbárie. Levantam a voz contra ela e fazem isso em países onde
existem perniciosas relações de propriedade, mas onde os açougueiros ainda
costumam lavar as mãos antes de servir a carne.
Ruidosas acusações contra a
barbárie e suas manifestações podem ter efeito durante um curto período,
enquanto os ouvintes acreditam que em seus respectivos países tais violências
não são possíveis. Certos países são capazes de manter relações de propriedade
por meios que se afiguram menos violentos do que em outros. Aí a democracia
ainda presta serviços; em outros, apela-se para a violência a fim de garantir a
propriedade dos meios de produção.
O monopólio das fábricas, das minas
e da terra está criando terríveis situações em toda a parte, embora nem sempre
evidentes. A barbárie torna-se visível quando o monopólio pode ser protegido
somente com a força bruta. Alguns países que ainda não foram forçados pelos
bárbaros monopólios a renunciar às garantias formais de um Estado
constitucional, nem tiveram de renunciar a certas vantagens, como a arte, a
filosofia, a literatura, alegram-se especialmente em ouvir visitantes de
outros países acusar sua pátria por ter renunciado a tudo isso. Disto esperam
tirar vantagens nas guerras que são aguardadas. Deve-se afirmar que aqueles
visitantes teriam descoberto a verdade, quando proclamam em altos brados: a
luta sem quartel contra a Alemanha deve ser feita porque “ela é a verdadeira
pátria do mal em nossos tempos, a filial do inferno, o covil do anticristo”?
Deveria dizer-se, isso sim, que essas pessoas são tolas, ignorantes,
prejudiciais, porque, admitindo tais asneiras como verdade, esse país deveria
ser riscado do mapa; todo o país, com todos os seus homens, porque o gás
venenoso não localiza os culpados quando mata.
A pessoa leviana, que não conhece a
verdade, se expressa em termos gerais, pomposos e imprecisos. Vem fantasiando
sobre os alemães, choramingando sobre o mal, romanceando as coisas de tal
maneira que o ouvinte não sabe o que fazer. Deve-se resolver não ser alemão?
Desaparecerá o inferno se ele for bom? Assim também, pomposamente, expressa
aquele palavreado sobre a barbárie como resultado da barbárie. Segundo essa
conversa, a barbárie é consequência da barbárie e cessa apenas com a cultura,
que é condicionada pela formação intelectual. Tudo isso são palavras vazias que
nada dizem a ninguém e nenhuma contribuição oferece à atuação prática.
Essas exposições mostram somente
poucos elos de uma série de causas e caracterizam determinadas forças em ação,
como forças incontroláveis. Tais exposições são obscuras, nelas se escondem
forças geradoras de catástrofes. Põe-se um pouco de luz sobre elas e logo
aparecem homens no palco, como causadores de catástrofes. Porque estamos
vivendo uma época em que o destino do homem é o homem.
Fascismo não é nenhuma catástrofe
da natureza e pode, portanto, ser explicado pela “natureza” do homem. Mesmo as
catástrofes da natureza podem ser explicadas de forma digna, quando se apela
para a capacidade de luta do homem.
Após o grande terremoto que
destruiu Yokohama, podia-se ver fotos em muitas revistas norte-americanas que
mostravam as ruínas. A legenda dizia: “steal stood” (o aço ficou de pé).
E realmente quem viu somente ruínas, à primeira vista, notou que alguns
edifícios haviam escapado intactos. Nas descrições de um terremoto, são da
maior importância os pareceres dos engenheiros civis, os quais levam em
consideração a movimentação da terra, a força dos impulsos, a intensidade do
calor, e conseguem formas de construção capazes de resistir ao tremor. Quem
quiser fazer uma análise sobre o fascismo e a guerra, apesar de as grandes
catástrofes não serem catástrofes da natureza, tem de argumentar com verdades
práticas. Tem de mostrar que as grandes catástrofes são preparadas pelos
proprietários dos meios de produção para grandes massas humanas que não os
possuem. Se quiserem escrever com êxito a verdade sobre graves situações,
deverão escrever de maneira que permita reconhecer suas causas evitáveis.
Reconhecendo as causas evitáveis, pode-se lutar contra essas situações.
4) A capacidade de escolher aqueles em cujas
mãos a verdade se torna eficiente
Durante centenas de anos, o
comércio das publicações no mercado das opiniões e da literatura em geral
tornou o escritor despreocupado quanto a seu produto. O escritor tinha a
impressão de que seu editor ou intermediário levaria seu escrito a todos.
Pensava: eu falo e os que querem ouvir me ouvem. Na realidade, falava. E os que
podiam pagar, ouviam-no, mas sua mensagem não era ouvida por todos. E os que a
ouviam, não queriam ouvir tudo. Sobre isso já se falou muito, ainda que demasiadamente
pouco. Quero somente realçar aqui que do “escrever a alguém” ficou apenas um
“escrever”. A verdade, porém, não se pode escrever assim. Ela realmente tem de
ser dirigida a alguém que saiba fazer algo com ela. A compreensão da verdade é
um processo comum, tanto para os escritores quanto para os leitores. Para poder-se
dizer algo bom é preciso ouvir bem e ouvir algo bom. A verdade deve ser dita
calculadamente e deve ser ouvida calculadamente. Para os escritores, é da
máxima importância saber a quem dizemos e de quem ouvimos. Devemos dizer a
verdade sobre a grave situação àqueles que estão em uma péssima situação e
deles devemos aprender os pormenores.
Não devemos nos dirigir somente às
pessoas de posição política definida, mas também às pessoas que já deveriam ter
tomado essa posição em virtude de sua situação. E os ouvintes mudam constantemente.
Mesmo os carrascos podem ser abordados, se o pagamento para o enforcamento não
está em dia ou se o perigo se tornou demasiadamente grande. Os camponeses da
Bavária eram contra qualquer revolução, mas quando a guerra já tinha durado
bastante tempo e os filhos, chegando em casa, não encontraram mais ocupação na
fazenda, nesse momento, então, puderam ser ganhos para a revolução.
Para o escritor, é importante
encontrar o tom da verdade. Geralmente, o que se ouve é um tom muito manso e
lamentoso de pessoas que não podem fazer mal sequer a uma mosca. Quem escuta
esse tom e está na miséria torna-se ainda mais miserável. Assim falam pessoas
que talvez não sejam inimigas, mas que certamente não são companheiros de
luta. A verdade é combativa. Não luta somente contra a inverdade, mas também
contra certos homens que a divulgam.
5) A astúcia de divulgar a verdade entre muitos
Muitas pessoas, orgulhosas de
divulgar a verdade, felizes por tê-la encontrado e talvez um tanto cansadas
pelo esforço despendido em dar-lhe forma palpável, na espera impaciente da ação
daqueles cujos interesses defendem, acham desnecessário utilizar ainda uma
astúcia especial para divulgá-la. Muitas vezes essa atitude tira todo o efeito
de seu trabalho. Em todas as épocas, a astúcia tem sido utilizada para divulgar
a verdade, sempre que esteve subjugada e oculta. Confúcio modificou velhas
lendas chinesas, alterando certas palavras. Quando se dizia que o potentado de
Kun havia mandado “matar” o filósofo Wan por ter dito isto ou aquilo, Confúcio
escreveu, em lugar de “matar”, “assassinar”. Quando se disse que o tirano fora
vítima de um “atentado”, ele escreveu “foi executado”. Com isso, Confúcio abriu
lugar para uma nova interpretação da história. Quem em nosso tempo diz
“população” em vez de “povo” e diz “propriedade” em vez de “terra” já não dá
apoio a muitas mentiras. Tira das palavras sua mística podre. A palavra “povo”
quer dizer uma certa unidade, pretende traduzir e dar a entender interesses
comuns; portanto, deveria ser utilizada quando se fala de diversos povos,
porque só nesses casos poderão existir interesses comuns. A população de um
território tem diversos interesses comuns e contrários. Eis uma verdade
geralmente suprimida. Quem fala do solo, descrevendo apenas o cheiro da terra e
a cor, apoia as mentiras dos que a dominam, porque não depende da fertilidade
do chão, nem do amor do homem a terra, nem do seu trabalho, mas especificamente
o que conta é o preço do trigo e da mão-de-obra. Os que lucram não são aqueles
que plantam o trigo. E o cheiro da terra é completamente estranho ao bolso, o
cheiro aí é diferente. Aí, a terminologia mais acertada é propriedade feudal;
com isso pode-se enganar menos. Onde existe opressão, a palavra disciplina
deve ser substituída pela palavra “obediência”, porque a disciplina também é
possível sem o déspota e, consequentemente, tem significado mais nobre que
obediência. Melhor que a palavra “honra” é a expressão “dignidade humana”. Com
isso não se perde o indivíduo tão facilmente do campo de visão. É bem sabido
que espécie de canalha se arroga a defender a “honra” de um povo, e como os
saciados arrotam honrarias sobre os que garantem sua fartura com a própria
fome. A astúcia de Confúcio ainda hoje pode ser utilizada. Confúcio substituiu
interpretações inexatas de acontecimentos nacionais por interpretações exatas.
O inglês Thomas More escreveu um livro utópico sobre um país que vivia em
estado de perfeita justiça — era um país bem diferente daquele em que ele
vivia, mas que se parecia muito com este. A única diferença é que, no país
utópico, existia justiça. Lenin, ameaçado pela política do czar e querendo
caracterizar a exploração e a opressão na ilha de Sacalina pela burguesia
russa, escreveu Japão em vez de Rússia e Coréia em lugar de Sacalina. Os
métodos da burguesia japonesa lembraram a todos os leitores os métodos russos
em Sacalina, porém o artigo não foi proibido porque o Japão era inimigo da
Rússia. O que não pode ser dito hoje sobre a Alemanha poderá ser dito sobre a
Áustria. Pode-se enganar o Estado desconfiado por meio de muitas astúcias.
Voltaire lutou contra o credo
milagroso da igreja escrevendo um poema galante sobre a virgem de Orleães, no
qual descrevia os milagres que devem ter acontecido para que Joana, no meio de
um exército, de uma corte e de monges, permanecesse virgem.
Pela elegância de seu estilo, e
relatando aventuras eróticas tiradas da vida voluptuosa dos governantes,
conduziu-os a renunciar a uma religião que lhes proporcionava os meios de uma
vida tão licenciosa. Além do mais, possibilitou que seus trabalhos chegassem de
maneira ilegal às mãos daqueles para os quais eram destinados. Seus leitores
poderosos estimularam ou toleraram sua divulgação. E o grande Lucrécio
acentuava que ele se aproveitava da beleza de seus versos para a divulgação do
ateísmo epicurista.
Um alto nível literário pode servir
de garantia para uma denúncia. Muitas vezes, porém, causa suspeita. Nesse caso,
deverá ser empregada uma forma literária mais acessível. Pode ser feita, por
exemplo, na forma do tão desprezado romance policial, contrabandeando em
trechos despercebidos descrições embaraçosas. Tais descrições justificam
perfeitamente um romance policial. O grande Shakespeare baixou propositadamente
seu nível por considerações muito menos importantes quando deixou falar a mãe
de Coriolano, ao enfrentar o filho que ia lutar contra sua cidade natal. De
maneira propositadamente elementar, queria que Coriolano não fosse detido por
razões lógicas nem emocionais que o fizessem desistir de seus planos, mas por
certa preguiça que lhe era peculiar.
Um outro exemplo de verdade
divulgada por meio da astúcia encontra-se em Shakespeare, no discurso de Marco
Antônio diante do cadáver de César. Realça, repetidamente, que Brutus, o assassino
de César, é um homem honrado. Mas relata também o delito e faz a descrição
desse delito. E é mais expressivo que a descrição do autor. O orador se deixa
vencer pelos fatos; e os torna mais eloquentes do que ele mesmo.
Um poeta egípcio, há quatro mil anos,
utilizou método parecido. Era uma época de grandes lutas de classe. A classe
até então governante defendeu-se a muito custo de sua antagonista: a parte da
população até então oprimida. No poema, surge na corte do imperador um sábio
chamado à luta contra o inimigo interno. Relata a desordem surgida pelo levante
nas camadas mais pobres de maneira longa e impressionante. Seu relatório tem o
seguinte aspecto:
Realmente, é assim:
Os nobres vivem cheios de queixa e os pobres
cheios de alegria. Cada cidade diz: expulsemos os fortes de nosso meio.
Realmente, é assim:
Os escritórios dos nossos burocratas foram
arrombados, e foram retirados seus arquivos; os escravos tornaram-se
cavalheiros.
Realmente, é assim:
Não se pode mais reconhecer o filho do respeitado,
o filho da senhora torna-se criança da escrava.
Realmente, é assim:
O cidadão está na mó. Os que nunca viram a luz
do dia partiram.
Realmente, é assim:
Os cofres de esmolas de ébano foram destruídos.
As maravilhosas madeiras de Sesnen foram despedaçadas e transformadas em camas.
Vejam, a residência foi derrubada em uma hora.
Vejam, os pobres do país ficaram ricos.
Vejam, quem não tinha pão agora possui celeiro,
e o que está em seu sótão é propriedade de um outro.
Vejam, faz bem a um homem quando não tem
comida.
Vejam, quem não tinha centeio agora possui
celeiro; quem pediu donativo de centeio agora o está distribuindo.
Vejam, quem não tinha alguns bois, hoje tem
rebanho; quem não podia emprestar um rebanho para arar hoje possui rebanhos
inteiros.
Vejam, quem não podia ter uma alcova para si
possui agora quatro paredes. Vejam, os conselheiros procuram refúgio no
celeiro; quem quase não tinha permissão para sentar no muro tem agora cama.
Vejam, quem não construiu o barco para si agora
possui navios. Se o proprietário olha para eles, nota que não mais lhe
pertencem.
Vejam, os que possuíram vestidos vestem agora
trapos, e quem nunca teceu para si possui agora linho fino.
O rico dorme com sede, e quem antes pediu sua
graça agora tem cerveja forte.
Vejam, quem nunca entendeu de tocar harpa tem uma
harpa; quem nunca cantou agora elogia a música.
Vejam, quem de pobre dormiu sem mulher agora
tem damas; quem tinha de olhar seu rosto na água agora tem espelho.
Mesmo os coronéis do país agora estão sem
emprego. Aos grandes não se relata mais nada. Quem era mensageiro agora manda
um outro...
Vejam, aí estão cinco homens mandados pelo amo;
eles disseram: “Faça você mesmo o caminho, nós chegamos.”
É evidente que isso relata um
estado de desordem que, para os oprimidos, era bastante desejável. Mesmo assim
é difícil apanhar o poeta. Ele está condenando expressamente esse estado de
coisas, ainda que de maneira vaga.
Jonathan Swift propôs em um pequeno
livro que, para o país chegar à riqueza, se deveria pôr as crianças dos pobres
em salmoura e vender a carne. Fez cálculos meticulosos do que poderia ser economizado
se não houvesse vacilação em aplicar essa fórmula. Swift se fez de bobo.
Defendeu determinada maneira de pensar odiada por ele. Fez isso com muito ardor
e meticulosidade em uma questão na qual a baixeza era claramente reconhecida.
Todo o mundo poderia ser mais inteligente do que Swift, ou ao menos mais
humano. Especialmente aqueles que não haviam analisado certos pontos de vista
decorrentes de determinados fatores.
A divulgação do
pensamento, não importa em que terreno seja, é sempre útil à causa dos
oprimidos. Uma divulgação assim é muito necessária. Em
governos que servem à exploração, o pensamento tem cotação baixa, como baixo é
considerado tudo o que é útil aos oprimidos. Baixa é a eterna preocupação pela
comida, baixo é recusar as honras prometidas pelos “defensores” da pátria,
duvidar do “Führer”, ter má vontade para com o trabalho que não sustenta o
homem, revoltar-se contra a imposição de tomar atitudes sem sentido. Baixo é
pensar. Os famintos são insultados como comilões; os que nada têm para defender
são apontados como covardes; os que duvidam dos opressores são acusados de
duvidar de suas próprias forças; os que reclamam salários por seu trabalho são
chamados de vagabundos etc. Sob tais governos, o ato de pensar, em geral, é
considerado baixo e suspeito.
O pensamento não é mais cultivado.
E, quando é cultivado, termina perseguido. Mesmo assim, sempre existem campos
nos quais, sem perigo de ser apanhado, se pode exercer com êxito o pensamento;
são os campos nos quais até as ditaduras necessitam do pensamento. Pode-se
provar os êxitos do pensamento nos campos da ciência militar e da técnica.
Assim, o aumento das reservas de lã
pela organização e invenção de matérias sintéticas (ersatz) exige
raciocínio. A qualidade cada vez pior dos alimentos, o treinamento da juventude
para a guerra, tudo isso exige pensamento, o que pode ser descrito. O elogio da
guerra, que é um pensamento irrefletido, pode ser astuciosamente evitado.
Assim, o pensamento que tem o objetivo de responder à pergunta sobre como
levar a guerra da melhor maneira conduzirá a uma outra pergunta: essa guerra
tem sentido? Pode-se também propor uma outra pergunta: qual é a maneira de
evitar uma guerra sem sentido? Essa pergunta naturalmente é muito difícil de
responder em público. Seria possível divulgar esse pensamento de maneira
eficiente e atuante? Seria.
Numa época como a
nossa, de opressão, em que ainda vigora a exploração de uma parte da população
pela parte menor, é necessário, para a continuidade desse domínio, determinado
comportamento da população que deve abranger todos os terrenos. Uma descoberta
no campo da zoologia, como a do inglês Darwin, conseguiu subitamente pôr em
perigo a exploração. Mesmo assim, durante certo tempo, somente a igreja tomou
conhecimento disso, enquanto a polícia nada havia percebido. Nos últimos anos,
as pesquisas dos físicos determinaram consequências no campo da lógica capazes
de abalar toda uma série de dogmas que visam à exploração. O filósofo do Estado
prussiano, Hegel, dedicando-se a uma série de pesquisas difíceis no campo da
lógica, forneceu a Marx e a Lenin, os clássicos da revolução proletária,
métodos de valor inestimável. O desenvolvimento da ciência realiza-se em
conexão, porém de maneira desigual, e o Estado não tem capacidade de tudo manter
sob seu controle. Os vanguardistas da verdade podem escolher terrenos de luta
relativamente pouco vigiados. Tudo depende de um pensamento genuíno, de um
pensamento que englobe todas as coisas e fenômenos em seu aspecto passageiro e
mutável.
Os dominadores têm
antipatia por mudanças acentuadas. Gostariam que tudo ficasse imutável, de preferência
por mil anos (2). Seria melhor que a Lua ficasse parada e o Sol não estivesse
em movimento. Nesse caso, ninguém mais teria fome, nem exigiria jantar. Quando
disparavam seus fuzis, os nazistas não admitiam que os adversários pudessem
responder a seus tiros. Uma consideração que acentue bem o transitório é um bom
meio para encorajar os oprimidos. Ao mesmo tempo, é importante mostrar aos
vitoriosos que, em tudo, em cada coisa, em cada acontecimento, existe uma
contradição que se manifesta e cresce inexoravelmente. Tal modo de ver (com a
dialética do ensinamento sobre o fluxo das coisas) pode ser assimilado para ser
utilizado na análise de acontecimentos, escapando por um tempo à vigilância dos
dominadores. Pode-se utilizar em biologia ou química. Mas, igualmente, a
história de uma família pode ser relatada assim, sem despertar demasiadamente a
atenção. A dependência de cada coisa a uma série de outras, que mudam
constantemente, é um pensamento perigoso para a ditadura, e pode aparecer de
múltiplas maneiras, sem oferecer pretextos à polícia. Um relato completo sobre
um homem que pretendia abrir uma charutaria pode resultar em sério golpe
contra a ditadura, se forem bem focalizados os processos e as circunstâncias que
o charuteiro tinha de aguentar. Quem refletir um pouco, encontrará o porquê. Os
governos que levam as massas à miséria têm de evitar que na miséria essas
massas se lembrem do governo. Falam muito do destino, e os governantes têm
mais culpa da penúria. Quem pesquisar as causas da penúria será preso antes de
poder mostrar sua verdadeira causa. Mas é possível enfrentar o palavreado do
governo, mostrando que o destino do homem é preparado pelo homem.
Isso pode ser feito de muitas
maneiras. Por exemplo, pode-se contar a história de uma pequena fazenda na
Islândia. Toda a aldeia está convencida de que certa maldição pesa sobre ela.
Uma camponesa jogara-se dentro do poço, e o camponês seu marido se enforcara.
Certo dia, casa-se o filho do camponês com uma moça que trouxe como dote
algumas terras. A maldição desaparece da fazenda. A aldeia não chega a uma
conclusão comum sobre essa mudança feliz. Uns dizem que vem da alegre natureza
do jovem camponês. Outros, porém, dizem que foram somente as terras trazidas pelo
casamento que colocaram a fazenda em condições de sobreviver. Mesmo em um poema
que retrata a natureza pode-se alcançar algo quando se liga à natureza a obra
feita pelo homem.
É necessário usar a astúcia para divulgar a verdade.
Conclusão
A grande verdade de nossa época
(cujo conhecimento não basta, mas sem o qual não se achará outra verdade de
importância) é que nosso continente submerge na barbárie, por querer manter
pela força as atuais relações de propriedade dos meios de produção. Qual a
valia em escrever algo corajoso, revelador do estado de barbárie em que estamos
afundando, se não definimos claramente porque chegamos a ele?
Devemos denunciar que torturas são
perpetradas para que as relações de propriedade sejam mantidas. Naturalmente,
dizendo isso, perdemos muitos amigos, que são contra as torturas porque
acreditam na possibilidade de manter as relações de propriedade sem torturas (o
que não corresponde à verdade).
Mais ainda: devemos dizer a verdade
sobre o estado bárbaro em que se encontra nosso país para possibilitar aquilo
que conduz ao desaparecimento desse estado. Isto é, devemos dizer como podem ser
alteradas as relações de propriedade dos meios de produção mesmo participando
dos lucros. E devemos agir com muita astúcia
Todas as cinco dificuldades devem
ser solucionadas ao mesmo tempo, porque não podemos pesquisar a verdade sobre o
estado de barbárie sem pensar ao mesmo tempo em suas vítimas. Quando evitamos
os acessos de covardia, devemos procurar as verdadeiras conexões para aqueles
que estão dispostos a aplicar os conhecimentos. Devemos também pensar e
entregar-lhes a verdade, de maneira que ela possa tornar-se uma arma em suas
mãos, astuciosamente, para não ser descoberta e anulada pelo inimigo.
Exige-se muito, quando se exige do escritor que escreva a verdade.
NOTAS
(1) Escrito em 1934 para
ser divulgado na Alemanha hitlerista. Publicado ilegalmente na revista Nosso
Tempo, editada pela União dos Escritores Alemães, em Paris. Tradução de
Florian Geyer para a revista Civilização Brasileira (São Paulo,
Brasiliense, n. 5-6, mar. 1966). Impresso no Versuche 9, 1949.
(2) O autor refere-se à
declaração do Partido Nazista quanto à permanência do “Grande Reich”, estimada
por Hitler em mil anos, após o Congresso do Partido, em Nuremberg. (N. T)
*****
Leia também:
Bertolt Brecht nos EUA: um refugiado anticapitalista na
pátria do capital. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho
A respeito de Ensaios sobre Brecht, de Walter Benjamin. Por
Agenor Bevilacqua Sobrinho
*****
Conheça também:
Atualidade/utilidade do trabalho de Brecht [Uma abordagem a partir do estudo de quatro personagens femininas.]
Autor: Agenor
Bevilacqua Sobrinho
Editora:
Cia. Fagulha
ISBN 13:
978-85-68844-01-4
Páginas: 408
WhatsApp:
(11) 95119-8357
No comments:
Post a Comment