A
respeito de Ensaios sobre Brecht,
de Walter Benjamin.
Por Agenor
Bevilacqua Sobrinho [1]
Publicado originalmente na Revista:
Dramaturgia em foco,
Petrolina-PE, v. 2, n. 2, p. 151-156, 2018.
FORMA
DE CITAÇÃO:
BEVILACQUA SOBRINHO, Agenor. A respeito
de Ensaios sobre Brecht, de Walter Benjamin. Dramaturgia em foco, América do Norte, 2, dec. 2018. ISSN –
2594-7796. Disponível em: <https://www.periodicos.univasf.edu.br/index.php/dramaturgiaemfoco/article/view/410/291>.
Acesso em: dia mês. ano.
Convite excelente para o exercício da dialética e
das reflexões necessárias para a transformação da realidade.
A
respeito de Ensaios sobre Brecht,
de Walter Benjamin.
Por Agenor
Bevilacqua Sobrinho.
Há 125 anos do nascimento do filósofo Walter
Benjamin [1892-1940], a edição do livro Ensaios
sobre Brecht, contendo a primeira versão integral em português de seus escritos
conhecidos [1930-1939] a respeito do escritor, dramaturgo e poeta Bertolt
Brecht [1898-1956], é uma excelente iniciativa editorial da Boitempo, cuja
parceria com o Goethe-Institut
(tradução de Claudia Abeling) possibilita aos interessados na obra brechtiana o
acesso a reflexões que iluminam a compreensão de nosso presente histórico
brasileiro de Estado de Exceção.
Provavelmente, Brecht gostaria muito que sua
obra cênica perdesse a vigência. Todavia, compreendendo que a superação do
capitalismo é um trabalho de largo fôlego histórico, procurou conhecer
profundamente as engrenagens capitalistas e suas principais características,
dotando sua obra poética, ensaística e teatral de densidades múltiplas para
suportar com vigor as transformações operadas em contextos e momentos
distintos.
Em “O que é o teatro épico? Um estudo sobre
Brecht” (1ª versão, 1931; 2ª versão,
1939), Benjamin reflete sobre a questão do teatro de sua época e, citando
Brecht, examina como o teatro épico representa uma tentativa de libertar o
aparato cênico do controle que exerce sobre músicos, autores e críticos. O
objetivo é devolver a estes produtores a posse do aparato e, consequentemente,
sua modificação nas diversas relações entre palco e público. Assim, a peça
didática e o teatro épico são uma tentativa de ocupar essa tribuna [o palco].
Benjamin menciona o despreparo da crítica de
seu tempo para abordar a mudança proposta e seus desdobramentos. Entretanto, em
muitos casos, perdura até hoje a inadaptabilidade e a idiossincrasia de “especialistas”
insatisfeitos por não serem requeridos em um processo no qual o público ativo
tomaria para si a cadeira antes cativa reservada para aqueles.
O teatro épico revela situações por meio da
interrupção de processos. Para isso, lança mão de técnicas de distanciamento.
Entendendo que o ser humano não se exaure com facilidade, abrigando e ocultando
dentro de si muitas possibilidades, de onde vem sua capacidade de
desenvolvimento, as contradições são expostas para livre exame do público.
“Estudos
para a teoria do teatro épico” mostra ser este teatro gestual. O teatro épico toma seus gestus da realidade atual. Ações e afirmações das pessoas estão
mais sujeitas à falsificação do que o gesto. Quanto mais interrompemos alguém
em sua ação, mais gestos obtemos. Entre outras, a função do texto no teatro
épico, em determinados casos, é interromper a ação.
Relação dialética entre conhecimento e educação
no teatro épico: o conhecimento alcançado tem efeito educativo imediato; ao
mesmo tempo, o efeito educativo do teatro épico se transforma em conhecimento
para o ator e o público.
“Trecho de ‘comentário sobre Brecht’” constata que “entre todos os autores alemães, ele [Brecht] é o único que se
pergunta onde empregar o seu talento e o único que só o emprega se estiver
convencido da necessidade de fazê-lo, abstendo-se sempre que a ocasião não o
exija”.
Nota que as palavras são percebidas; depois,
compreendidas. “Seu primeiro efeito é
pedagógico; em seguida, político; bem por último, poético.” Portanto, a
prerrogativa é sobre a educação, o processo de ensino-aprendizagem.
“Um drama familiar no teatro épico” pergunta:
qual é a função social da família e a relação entre seus membros? A mãe produz
a descendência. Essa função social pode tornar-se revolucionária? Benjamin faz
uma análise perspicaz de A mãe, agitprop de Brecht baseado na peça
homônima de Máximo Gorki. A exploração da mulher e a dupla jornada, as relações
entre as carências domésticas e o sistema econômico que as produz, o
questionamento e a modificação de papéis tradicionalmente atribuídos à mulher.
Benjamin adverte para não se perder tempo com
relações entre forma e conteúdo, por não serem dialéticas. Oposição dialética
há entre teoria e prática.
“O país em que o proletariado não pode ser
mencionado” relata as dificuldades impostas pela perseguição e censura (que
insiste em 2017, 18, 19... em revisitar-nos pelas mãos de
juízes-padres-pastores). Teatro da emigração: palco e dramaturgia. A propósito
de Terror e miséria do Terceiro Reich,
de Brecht, Benjamin mostra a precisão das cenas curtas e de que modo o
distanciamento contribuiria para a exposição analítica das situações do
cotidiano enfrentadas no período nazista.
Fenômenos das décadas de 1930 [e de 1940] são
reproduzidos com nuances em pleno século XXI. No mundo, o pensamento único
neoliberal repõe a necessidade de deslocamentos colossais de populações que se
arriscam para fugir da precariedade absoluta de condições locais devastadas em
direção a supostos “idílicos” espaços de abundância nos países centrais, que os
rejeitam e criam estigmas diversos para afastar/eliminar os visitantes
indesejáveis.
“Comentários sobre poema de Brecht” faz a
distinção entre comentário e crítica e traz exemplos das abordagens
interpretativas refinadas de Benjamin, ensejando exercícios de tentativas do(a)
leitor(a) para explorar as possibilidades da rica veia poética de Brecht.
Em “Sobre ‘Guia para o habitante das cidades’”,
por exemplo, Benjamin observa ser Brecht “o primeiro poeta lírico importante
que tem algo a dizer do homem urbano”. Acrescenta que aquele que luta pela
classe explorada é um emigrante em seu próprio país. O Guia oferece lições na clandestinidade e na emigração. O comentário
pretende iluminar conteúdos políticos em partes puramente líricas.
Segundo Benjamin, o “Romance dos três vinténs,
de Brecht”, dá a oportunidade de comparar a evolução do romance policial:
“Brecht observa que Dostoiévski estava interessado na psicologia; ele revelava
a parte criminosa intrínseca ao ser humano. Brecht se interessa por política;
ele revela a parte criminosa intrínseca ao negócio.” Entendemos que este
deslocamento da perspectiva permite compreender a complexidade e os
desdobramentos de fenômenos socioeconômicos, evitando limitações e caricaturas
psicologizantes.
Em “O autor como produtor”, a preocupação está
em investigar e incentivar na atividade intelectual o que é útil aos
trabalhadores na luta de classes. O lugar do intelectual na luta de classes só
pode ser escolhido por sua posição no processo produtivo.
De acordo com Benjamin, Brecht foi o primeiro a
dirigir aos intelectuais a exigência abrangente de não abastecer o aparelho de
produção sem simultaneamente, na medida do possível, o modificar no sentido do
socialismo.
Brecht criou o conceito de “mudança de função”
(Umfunktionierung). Refuncionalizar
para a transformação de formas e instrumentos de produção no sentido de uma
inteligência mais progressista, ou seja, interessada na libertação dos meios de
produção e atuante na luta de classes.
Daí decorre averiguar e implementar as
sugestões de mudanças de função do romance, do drama, do poema etc.
Em “Conversas com Brecht. Anotações de
Svendborg”, apontamentos de diálogos esclarecedores entre os dois amigos
alemães no exílio dinamarquês de Brecht, em forma de diário, sobre o “autor
como produtor”, Kafka, a crítica ao personalismo na Rússia e do regime dirigido
por Stálin, as desavenças com Lukács, a leitura de As afinidades eletivas, de Goethe; da esperança de superar o
fascismo etc.
Sem que paire dúvidas sobre a postura quanto ao
stalinismo, as anotações, datadas de agosto de 1939, registram a análise de
Brecht sem meias-palavras: Existe na Rússia uma ditadura sobre o proletariado.
O “Posfácio da edição alemã”, de Rolf Tiedemann
(da 1ª edição de Versuche über Brecht,
de 1966), é incluído também nesta edição.
Com o adorno da arrogância, Rolf Tiedemann
tripudia das posições marxistas de Benjamin e Brecht, tidas como encobertas por
uma camada de pátina, ou seja, envelhecidas. Considera um amontoado inatual e,
como coveiro, se oferece para o serviço de sepultar o que considera perecimento
da perspectiva defendida pelos marxistas Benjamin e Brecht
Ironicamente, nos dias de hoje, a ascensão de
movimentos fascistas ao redor do mundo e a prática remodelada de antigos golpes
de Estado demonstram que a História não acabou e a hiperconcentração da renda
nas mãos de 1% da população são dados que prenunciam não o fim, mas o
recrudescimento da luta de classes.
Tiedemann afirma que Benjamin, por ser acrítico, não é confiável a Brecht. Do
mesmo modo, poderíamos repetir o jogo de palavras e dizer que Tiedemann também
não merecia confiança de Adorno, por iguais razões.
Há, ainda, dois outros textos findando o livro.
Em “Aspectos da representação brechtiana”, Sérgio de Carvalho observa pontos de
vista da representação brechtiana e assinala algumas de suas influências
históricas. Alude sobre a importância do distanciamento como pré-requisito à
compreensão crítica e aduz que, dos modos de representação do autor, a
representação crítica é a que procura evidenciar as relações entre os homens.
Por sua vez, “Brecht/Brasil/1997 (Vinte anos
depois)”, de José Antonio Pasta, repõe a questão da atualidade de Brecht e nota
que a mesma está instalada no núcleo da obra brechtiana. Ressalta, inicialmente,
a constante campanha de difamação sofrida pelo autor alemão, e refere-se
concretamente ao desonesto livro de John Fuegi (1994).
Identifica uma dificuldade do leitor brasileiro
(em função da moda da “metalinguagem” e de seus estragos; e o vezo de sideração
do receptor) em reconhecer e valorizar a radicalidade autocrítica de Brecht.
Esse “pânico insuperável da alteridade”, “base equívoca tanto das suspeitas
doçuras quanto do entranhado fascismo nacional”, portanto, contrastando com
Brecht que “faz da liberdade do receptor seu critério de excelência”.
Daí a insistência em encenações em nossos
palcos do Brecht “apocalíptico”, da juventude, raramente alcançando suas
qualidades; as peças da maturidade, em geral, sofrem uma erosão de seu caráter
racionalista.
O autoquestionamento e a perspectiva
“clássica”, voltada para a duração, pode ser vista também como efeito de distanciamento.
Como Brecht entende que o combate contra o
capitalismo é de longo prazo, conferir longa duração às obras é dotá-las de
alento tanto para as lutas imediatas quanto as vindouras.
Em Brecht, a autonomia da obra de arte é apenas
um de seus recursos, por isso não há porque sacralizá-la. Seu interesse reside
no valor crítico diante da alienação e da heteronomia. Daí a discrepância nas
cobranças ferozes de “atualidade” de obras engajadas; enquanto nas ditas
“autônomas”, gentilmente dispensadas das mesmas exigências, permite-se que
vivam apartadas do mundo.
Como o capitalismo ainda se apresenta a muitos
como ente fantasmagórico, é mister compreender que a vitalidade da obra de
Brecht é decorrente de sua eficácia crítica, de teor anticapitalista. A
vilipendiada dialética é a via de acesso ao real e a possibilidade de um mundo
outro, no qual superemos a alienação e as heteronomias.
A presente edição ainda oferece uma cronologia
dupla de W. B. e B., que mostra alguns dos percursos de ambos em contextos
complexos e decisivos.
Por outro lado, entendemos que a bibliografia
recomendada sobre estudos brasileiros
e repercussões de Brecht e do teatro
épico no país é autocentrada e circular em relação aos colaboradores.
De todo modo, a edição dos Ensaios sobre Brecht é convite excelente para o exercício da
dialética e das reflexões necessárias para a transformação da realidade.
Referência
BENJAMIN, Walter. Ensaios sobre Brecht. Tradução Claudia Abeling. São Paulo: Boitempo, 2017. (Coleção: Marxismo e literatura).
[1] Agenor Bevilacqua Sobrinho é doutor em Artes Cênicas pelo
CAC/ECA-USP e Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual
Paulista (IA-UNESP). É pesquisador do Grupo de Pesquisa Estudos
histórico-críticos e dialéticos de teatro estadunidense e brasileiro (CNPq). Editor,
dramaturgo e escritor, é autor de Atualidade/utilidade do trabalho de Brecht. Uma abordagem a partir do
estudo de quatro personagens femininas, A Lente, A Guerra de Yuan, O Rato Pensador (todos pela Editora Cia. Fagulha: www.ciafagulha.com.br) e de vários artigos
publicados em revistas especializadas.
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Conheça também:
Atualidade/utilidade
do trabalho de Brecht [Uma
abordagem a partir do estudo de quatro personagens femininas.]
Autor:
Agenor Bevilacqua Sobrinho
Editora:
Cia. Fagulha
ISBN
13: 978-85-68844-01-4
Páginas: 408
WhatsApp:
(011) 95119-8357
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