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A Guerra e outros combates. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho


A Guerra e outros combates. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho


Orcid: orcid.org/0000-0003-4528-8776

Publicado anteriormente em: Revista UniABC - Humanas, v. 2, p. 37-42, 2011.


NOTA PRELIMINAR, de Maria Sílvia Betti: 

Este texto foi reelaborado a partir de um artigo acadêmico anterior, publicado entre 2010 e 2011 na Revista UniABC - Humanas, publicação da UniABC. Essa Universidade encontrava-se então sob o controle administrativo do grupo Anhanguera, que em 2013 fundiu-se à rede Kroton, criando assim a maior companhia de educação do mundo. 

Demissões em massa dos professores da UniABC vinham sendo realizadas desde 2010, e a fusão com a Kroton deu prosseguimento acelerado a essas megademissões, numa demonstração cabal da prevalência da lógica empresarial predatória e precarizante em relação ao ensino e ao trabalho docente.

A publicação dele no blog da Editora Cia. Fagulha tem a finalidade de alertar os leitores sobre a necessidade da articulação de uma luta continuada e intensa pela defesa da educação e do trabalho formativo exercido pelos professores em todos os seus níveis.





A Guerra e outros combates. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho [1] 


Resumo
Considerando o contexto histórico da produção da obra do dramaturgo e pensador alemão Bertolt Brecht (1898-1956), analisamos, numa de suas obras iniciais, como ele avalia o significado da rebelião do inverno de 1918-1919.

Palavras-chave
Brecht; rebelião; teatro burguês; teatro político; distanciamento.



Manke, o garçom --- Até as estrelas saem da linha, quando uma pessoa assiste friamente a uma injustiça.
(BRECHT, 1986, p. 111)


Introdução

O contexto histórico da produção da obra do dramaturgo e pensador alemão Bertolt Brecht (1898-1956), permite-nos compreender as adversidades de seus contemporâneos nos conturbados anos pós e entreguerras.
Sabemos que a Alemanha chega à Guerra por interesses imperiais. Os participantes do conflito acreditam ingenuamente que sairão vitoriosos (SCHORSKE, 1988).
Humilhada pela derrota na 1ª Guerra (1914-1918) e pelo Tratado de Versalhes [2], a Alemanha passa por dificuldades imensas (VON ECKARDT & GILMAN, 1996).
A derrota arrasadora se reflete nas condições de vida da população. No período da Guerra, a indústria incipiente é convertida para a produção bélica, gerando fome,
Brecht, servindo como enfermeiro, tem seu patriotismo comutado em horror ao observar as desgraças e atrocidades que se banalizam na guerra. O que provoca nele uma série de mudanças e paulatinamente lhe traz um redimensionamento de sua visão de mundo.
A engrenagem que faculta esses tipos de acontecimentos para ele ainda não é clara. Mas ele já está convertido em pacifista. E a sociedade militarizada o atemoriza.
O teatro de Brecht é produzido num período de guerras e entreguerras; assim, em grande medida reflete a problemática da guerra, dos soldados que voltam como aleijões, sem esperanças; às vezes, com suas medalhas; mas com a vida finalizada, permanecem como cadáveres que andam.

Combates

Neste trabalho, vamos nos deter na maneira como Brecht avalia o significado da rebelião do inverno de 1918-1919, na Alemanha, por meio da representação dela numa de suas peças da juventude.
Tambores na Noite [3] é uma peça que passou por modificações posteriores que não lhe retiraram o conteúdo pessimista, diretamente relacionado com o clima da época: final da 1ª Guerra e os destroços de pessoas e coisas por toda parte; além disso, a tentativa frustrada da Liga Espartaquista, fundada em 1915, de derrubada do governo imperial alemão e da conquista do poder político pelos trabalhadores.
Portanto, tendo como pano de fundo a revolta espartaquista, Brecht contará o drama [4] do soldado Andreas Kragler que volta depois de 4 anos para casa, vindo da Argélia, no Continente Africano, onde era prisioneiro de guerra. Ele permanece na memória de Anna Balicke, sua noiva, como assombração, atormentando-a. Nada de notícias ou contatos, o que faz com que os Balicke presumam a morte de Kragler. Tal ideia encontra em Karl Balicke, o pai da moça, um entusiasta visceral, uma vez que não se importa com a sorte (a desgraça) do soldado; preocupa-se apenas em sair da miséria [5] e vê como salvo-conduto para esse percurso se concretizar seu desejo de rifar a filha para Murk, sujeito endinheirado que fez fortuna às custas das tragédias da guerra e que engravidou Anna.
Karl Balicke, ao falar sobre o efeito da desorganização social provocada pela guerra, da indisciplina e do embrutecimento dos soldados e suas ações sem limites, aproveita para acusar os revolucionários, potenciais destruidores de seu sonho de ascensão social meteórica.
Por sua vez, Murk diz cinicamente ter subido na vida a duras penas (produz cestos para munição). Seu “futuro” sogro o adverte sobre a incerteza deste negócio.

E quando a guerra acabar? O melhor seria produzir carrinhos de bebê.
(SOA O HINO ALEMÃO)
Brindam. A guerra para nós foi uma sorte, regozijam-se.
(BRECHT, 1986, p. 85)

Mas é Babusch, o jornalista, quem anuncia o rompimento de acordos e a mobilização espartaquista, bem como indica a posição contraditória da imprensa sobre o conflito: “o sabá das bruxas vermelhas”, “são uns canalhas”, “o damasco está caro”, “a bandeira deles é a preguiça”, “enquanto os famintos uivam, a alta sociedade refestela-se nos salões de baile”.
Vão ao Bar Picadilly para comemorar o noivado, e é lá que Kragler, esquálido e maltrapilho, aparece assombrando Anna e apavorando a mãe dela. A luta social e o drama pequeno-burguês correm paralelamente.
Kragler tenta contar seus sofrimentos de guerra, suas lembranças. Porém, enquanto Murk despreza Kragler por sua aparência e penúria — oferecendo-se para comprar suas botas para o Museu Militar — o pai de Anna reforça a humilhação, dizendo ao soldado que seus feitos serão recompensados pelos livros de história; todavia, como nos apontamentos do contador não há tilintar de moedas, o melhor mesmo seria que ele voltasse para a África.
Kragler, apesar de seu abatimento, tenta reagir erguendo Murk pelo colarinho e clamando para Anna acompanhá-lo, a despeito de que ele seja pobre.
Em certo momento, os tiros do combate são acompanhados pela Internacional, o que faz Karl Balicke, feroz reacionário, reconhecer em Kragler o parentesco com os revoltosos [6] “comedores de carne humana”, os quais deveriam ser destruídos.
No terceiro ato, intitulado Cavalgada das Valquírias [7], as personagens tropegamente tentam encontrar a si mesmas e aos outros, mas desencontram-se: os mortos são tantos que excedem sua obstinação.
Anna busca Kragler, que indeciso se participa ou não da revolta [8], “resolve” entrar com Marie, a prostituta, num bar onde o dono canta a Balada do soldado morto (4º ato).
Kragler embebeda-se e não vê mais no mundo espaço para a justiça, pois até mesmo os céus estariam loteados (Ibidem, p. 119); e é total a indiferença para com os que foram à guerra. Enquanto isso, entra uma vendedora de jornais anunciando as manchetes de jornais sobre a revolta.
No 5º ato, ao avistar Anna, deseja-a, embora a insulte ao chamá-la de “puta”; recobra parcialmente seus sentidos e renuncia a participar da revolta, vista por ele como não sendo mais do que uma aventura romântica, e, assim, não valendo arriscar a própria pele. Kragler expressa sua angústia ao não perceber a possibilidade de mudanças; como o vazio é enorme, contenta-se em manter o existente. Ironiza o movimento:

Amanhã de manhã a gritaria terá acabado, estarei deitado em minha cama e reabastecerei a raça de ‘porcos’ para que eu não morra (Ibid., p. 128).

Podemos ler aqui a alfinetada mordaz dada pelo autor naqueles (os porcos que vão continuar a se reproduzir) que não viram na revolução a oportunidade de derrocada do império.

No final, apela para que:

(...) não façam essas caras tão românticas, cambada de usurários (...) Seus estranguladores... (Loc. cit.)

Rufa o tambor e o lança em direção à lua (um lampião); o tambor e a lua caem dentro do rio, onde não existe água. Ou seja: atenção!, aqui é teatro! Local de entretenimento, mas também de reflexão.


Conclusão

Brecht reconheceu que não havia avaliado em toda a sua extensão o significado da rebelião do inverno de 1918-1919. O dramaturgo alemão praticara, de maneira incipiente, o “distanciamento” (um dos cernes de sua teoria dramática): em Munique, onde estreou, os biombos de papelão vermelho de cerca de dois metros de altura representavam paredes de um quarto, atrás dos quais se via a cidade grande, Berlim, pintada à maneira infantil; e uma lua que brilhava vermelha quando Kragler aparecia; os cartazes que pediam ao público para não envolver-se emocionalmente (“Não façam essas caras tão românticas”). Ele afirma: “não consegui mostrar a revolução ao espectador, exceto através dos olhos do ‘herói’ Kragler, e ele a via como algo romântico. A técnica do ‘distanciamento’ ainda não estava sob meu controle” (BRECHT, apud EWEN, 1991, p, 95).
Posteriormente, Brecht desenvolverá largamente o distanciamento, que possibilita crítica fecunda da ideologia.
Concebido para historicizar os acontecimentos representados, ou seja, dar-lhes a dimensão temporal, significativa e particular, o distanciamento entra em contraposição ao teatro burguês, que dava ênfase à intemporalidade de seu objeto, julgando existir uma essência humana eterna e universal. Esta perspectiva tem um fulcro claramente ideológico: manter estagnada a vida e o status quo (BRECHT, 1967, p. 111-112).
Pelo distanciamento operado no espaço e no tempo, questões cotidianas, tidas como habituais e eternas, podem ser vistas com estranheza e, portanto, retirada a crosta do cotidiano, cria-se a possibilidade de serem modificáveis. Esclarecer o que é o mundo e perceber sua formação e suas contradições, para que estas sejam superadas.
Entretanto, como dissemos, no momento da produção de Tambores na Noite, tais procedimentos eram apenas embrionários.



Referências bibliográficas

BRECHT, Bertolt. Tambores na noite. In: ______. Teatro Completo. Tradução Fernando Peixoto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. v. 1, p. 75-128.

______. Teatro dialético: ensaios. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1967.

EWEN, Frederic. Bertolt Brecht: sua vida, sua arte, seu tempo. São Paulo: Globo,1991.

ROSENFELD, Anatol. O teatro épico. 6 ed. São Paulo: Perspectiva, 2008.

SCHORSKE, Carl E. Viena fin-de-siècle: política e cultura. Campinas: Unicamp; São Paulo: Companhia das Letras,1988.

VON ECKARDT, Wolf; GILMAN, Sander L. A Berlim de Bertolt Brecht: um álbum dos anos 20. Rio de Janeiro: José Olympio, 1996.


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Notas

[1] Agenor Bevilacqua Sobrinho é doutor em Artes Cênicas pelo CAC/ECA-USP e Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (IA-UNESP). É pesquisador do Grupo de Pesquisa Estudos histórico-críticos e dialéticos de teatro estadunidense e brasileiro (CNPq). Editor, dramaturgo e escritor, é autor de Atualidade/utilidade do trabalho de Brecht. Uma abordagem a partir do estudo de quatro personagens femininasA LenteA Guerra de YuanO Rato Pensador (todos pela Editora Cia. Fagulhawww.ciafagulha.com.br), além de diversos artigos sobre arte crítica, teatro, política e sociologia em revistas especializadas, como A resistível ascensão de Bushad’óleo (Margem Esquerda n. 5, Boitempo Editorial), Bertolt Brecht nos EUA: um refugiado anticapitalista na pátria do capital (Rebento: Revista de Artes do Espetáculo, v. 5, 2015) e A respeito de Ensaios sobre Brecht, de Walter Benjamin (Revista Dramaturgia em foco, v. 2, n. 2, p. 151-156, 2018).
Orcid: orcid.org/0000-0003-4528-8776. E-mail: editora@ciafagulha.com.br

[2] De 28/06/1919. Implica em perda de territórios, de colônias e proibição de se rearmar, entre outras restrições.

[3] Tambores na Noite (1919). Estreia: 29/09/1922 – Munique.

[4] Ou comédia, como Brecht chamava esta obra, pois Kragler renuncia à luta que também poderia beneficiá-lo, enquanto o drama verdadeiro é dos operários que abraçaram o combate.

[5] Cuja penúria o obriga a fazer barba na penumbra e, em consequência, se corta: “Um corte é grátis, mas a luz custa dinheiro” (BRECHT, 1986, p. 80).

[6] Uma das reivindicações era a indenização aos que foram à Guerra.

[7] Com referência irônica às Valquírias, de Wagner. Na mitologia escandinava, evoca as divindades, mensageiras de Odim (deus da guerra e da sabedoria), cuja atribuição era recolher os heróis mortos nos campos de batalha.

[8]
Babusch, o jornalista, vê no movimento uma grande ilusão: “(a) plebe imagina ter chegado o momento de ajustar velhas contas!” (BRECHT, 1986, p.111)  



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Conheça também:



Atualidade/utilidade do trabalho de Brecht [Uma abordagem a partir do estudo de quatro personagens femininas.]
Autor: Agenor Bevilacqua Sobrinho
Editora: Cia. Fagulha
ISBN 13:       978-85-68844-01-4
Páginas:       408










WhatsApp: (11) 95119-8357



A respeito de Ensaios sobre Brecht, de Walter Benjamin. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho


A respeito de Ensaios sobre Brecht, de Walter Benjamin.
Por Agenor Bevilacqua Sobrinho [1]

Orcid: orcid.org/0000-0003-4528-8776.

Publicado originalmente na Revista:

Dramaturgia em foco, Petrolina-PE, v. 2, n. 2, p. 151-156, 2018. 



FORMA DE CITAÇÃO:

BEVILACQUA SOBRINHO, Agenor. A respeito de Ensaios sobre Brecht, de Walter Benjamin. Dramaturgia em foco, América do Norte, 2, dec. 2018. ISSN – 2594-7796. Disponível em: <https://www.periodicos.univasf.edu.br/index.php/dramaturgiaemfoco/article/view/410/291>. Acesso em: dia mês. ano.



Convite excelente para o exercício da dialética e
das reflexões necessárias para a transformação da realidade.


A respeito de Ensaios sobre Brecht, de Walter Benjamin.
Por Agenor Bevilacqua Sobrinho.

Há 125 anos do nascimento do filósofo Walter Benjamin [1892-1940], a edição do livro Ensaios sobre Brecht, contendo a primeira versão integral em português de seus escritos conhecidos [1930-1939] a respeito do escritor, dramaturgo e poeta Bertolt Brecht [1898-1956], é uma excelente iniciativa editorial da Boitempo, cuja parceria com o Goethe-Institut (tradução de Claudia Abeling) possibilita aos interessados na obra brechtiana o acesso a reflexões que iluminam a compreensão de nosso presente histórico brasileiro de Estado de Exceção.
Provavelmente, Brecht gostaria muito que sua obra cênica perdesse a vigência. Todavia, compreendendo que a superação do capitalismo é um trabalho de largo fôlego histórico, procurou conhecer profundamente as engrenagens capitalistas e suas principais características, dotando sua obra poética, ensaística e teatral de densidades múltiplas para suportar com vigor as transformações operadas em contextos e momentos distintos.
Em “O que é o teatro épico? Um estudo sobre Brecht” (1ª versão, 1931; 2ª versão, 1939), Benjamin reflete sobre a questão do teatro de sua época e, citando Brecht, examina como o teatro épico representa uma tentativa de libertar o aparato cênico do controle que exerce sobre músicos, autores e críticos. O objetivo é devolver a estes produtores a posse do aparato e, consequentemente, sua modificação nas diversas relações entre palco e público. Assim, a peça didática e o teatro épico são uma tentativa de ocupar essa tribuna [o palco].
Benjamin menciona o despreparo da crítica de seu tempo para abordar a mudança proposta e seus desdobramentos. Entretanto, em muitos casos, perdura até hoje a inadaptabilidade e a idiossincrasia de “especialistas” insatisfeitos por não serem requeridos em um processo no qual o público ativo tomaria para si a cadeira antes cativa reservada para aqueles.
O teatro épico revela situações por meio da interrupção de processos. Para isso, lança mão de técnicas de distanciamento. Entendendo que o ser humano não se exaure com facilidade, abrigando e ocultando dentro de si muitas possibilidades, de onde vem sua capacidade de desenvolvimento, as contradições são expostas para livre exame do público.
Estudos para a teoria do teatro épico” mostra ser este teatro gestual. O teatro épico toma seus gestus da realidade atual. Ações e afirmações das pessoas estão mais sujeitas à falsificação do que o gesto. Quanto mais interrompemos alguém em sua ação, mais gestos obtemos. Entre outras, a função do texto no teatro épico, em determinados casos, é interromper a ação.
Relação dialética entre conhecimento e educação no teatro épico: o conhecimento alcançado tem efeito educativo imediato; ao mesmo tempo, o efeito educativo do teatro épico se transforma em conhecimento para o ator e o público.
“Trecho de ‘comentário sobre Brecht’” constata que “entre todos os autores alemães, ele [Brecht] é o único que se pergunta onde empregar o seu talento e o único que só o emprega se estiver convencido da necessidade de fazê-lo, abstendo-se sempre que a ocasião não o exija”.
Nota que as palavras são percebidas; depois, compreendidas. “Seu primeiro efeito é pedagógico; em seguida, político; bem por último, poético.” Portanto, a prerrogativa é sobre a educação, o processo de ensino-aprendizagem.
“Um drama familiar no teatro épico” pergunta: qual é a função social da família e a relação entre seus membros? A mãe produz a descendência. Essa função social pode tornar-se revolucionária? Benjamin faz uma análise perspicaz de A mãe, agitprop de Brecht baseado na peça homônima de Máximo Gorki. A exploração da mulher e a dupla jornada, as relações entre as carências domésticas e o sistema econômico que as produz, o questionamento e a modificação de papéis tradicionalmente atribuídos à mulher.
Benjamin adverte para não se perder tempo com relações entre forma e conteúdo, por não serem dialéticas. Oposição dialética há entre teoria e prática.
“O país em que o proletariado não pode ser mencionado” relata as dificuldades impostas pela perseguição e censura (que insiste em 2017, 18, 19... em revisitar-nos pelas mãos de juízes-padres-pastores). Teatro da emigração: palco e dramaturgia. A propósito de Terror e miséria do Terceiro Reich, de Brecht, Benjamin mostra a precisão das cenas curtas e de que modo o distanciamento contribuiria para a exposição analítica das situações do cotidiano enfrentadas no período nazista.
Fenômenos das décadas de 1930 [e de 1940] são reproduzidos com nuances em pleno século XXI. No mundo, o pensamento único neoliberal repõe a necessidade de deslocamentos colossais de populações que se arriscam para fugir da precariedade absoluta de condições locais devastadas em direção a supostos “idílicos” espaços de abundância nos países centrais, que os rejeitam e criam estigmas diversos para afastar/eliminar os visitantes indesejáveis.
“Comentários sobre poema de Brecht” faz a distinção entre comentário e crítica e traz exemplos das abordagens interpretativas refinadas de Benjamin, ensejando exercícios de tentativas do(a) leitor(a) para explorar as possibilidades da rica veia poética de Brecht.
Em “Sobre ‘Guia para o habitante das cidades’”, por exemplo, Benjamin observa ser Brecht “o primeiro poeta lírico importante que tem algo a dizer do homem urbano”. Acrescenta que aquele que luta pela classe explorada é um emigrante em seu próprio país. O Guia oferece lições na clandestinidade e na emigração. O comentário pretende iluminar conteúdos políticos em partes puramente líricas.
Segundo Benjamin, o “Romance dos três vinténs, de Brecht”, dá a oportunidade de comparar a evolução do romance policial: “Brecht observa que Dostoiévski estava interessado na psicologia; ele revelava a parte criminosa intrínseca ao ser humano. Brecht se interessa por política; ele revela a parte criminosa intrínseca ao negócio.” Entendemos que este deslocamento da perspectiva permite compreender a complexidade e os desdobramentos de fenômenos socioeconômicos, evitando limitações e caricaturas psicologizantes.
Em “O autor como produtor”, a preocupação está em investigar e incentivar na atividade intelectual o que é útil aos trabalhadores na luta de classes. O lugar do intelectual na luta de classes só pode ser escolhido por sua posição no processo produtivo.
De acordo com Benjamin, Brecht foi o primeiro a dirigir aos intelectuais a exigência abrangente de não abastecer o aparelho de produção sem simultaneamente, na medida do possível, o modificar no sentido do socialismo.
Brecht criou o conceito de “mudança de função” (Umfunktionierung). Refuncionalizar para a transformação de formas e instrumentos de produção no sentido de uma inteligência mais progressista, ou seja, interessada na libertação dos meios de produção e atuante na luta de classes.
Daí decorre averiguar e implementar as sugestões de mudanças de função do romance, do drama, do poema etc.
Em “Conversas com Brecht. Anotações de Svendborg”, apontamentos de diálogos esclarecedores entre os dois amigos alemães no exílio dinamarquês de Brecht, em forma de diário, sobre o “autor como produtor”, Kafka, a crítica ao personalismo na Rússia e do regime dirigido por Stálin, as desavenças com Lukács, a leitura de As afinidades eletivas, de Goethe; da esperança de superar o fascismo etc.
Sem que paire dúvidas sobre a postura quanto ao stalinismo, as anotações, datadas de agosto de 1939, registram a análise de Brecht sem meias-palavras: Existe na Rússia uma ditadura sobre o proletariado.
O “Posfácio da edição alemã”, de Rolf Tiedemann (da 1ª edição de Versuche über Brecht, de 1966), é incluído também nesta edição.
Com o adorno da arrogância, Rolf Tiedemann tripudia das posições marxistas de Benjamin e Brecht, tidas como encobertas por uma camada de pátina, ou seja, envelhecidas. Considera um amontoado inatual e, como coveiro, se oferece para o serviço de sepultar o que considera perecimento da perspectiva defendida pelos marxistas Benjamin e Brecht
Ironicamente, nos dias de hoje, a ascensão de movimentos fascistas ao redor do mundo e a prática remodelada de antigos golpes de Estado demonstram que a História não acabou e a hiperconcentração da renda nas mãos de 1% da população são dados que prenunciam não o fim, mas o recrudescimento da luta de classes.
Tiedemann afirma que Benjamin, por ser acrítico, não é confiável a Brecht. Do mesmo modo, poderíamos repetir o jogo de palavras e dizer que Tiedemann também não merecia confiança de Adorno, por iguais razões.
Há, ainda, dois outros textos findando o livro. Em “Aspectos da representação brechtiana”, Sérgio de Carvalho observa pontos de vista da representação brechtiana e assinala algumas de suas influências históricas. Alude sobre a importância do distanciamento como pré-requisito à compreensão crítica e aduz que, dos modos de representação do autor, a representação crítica é a que procura evidenciar as relações entre os homens.
Por sua vez, “Brecht/Brasil/1997 (Vinte anos depois)”, de José Antonio Pasta, repõe a questão da atualidade de Brecht e nota que a mesma está instalada no núcleo da obra brechtiana. Ressalta, inicialmente, a constante campanha de difamação sofrida pelo autor alemão, e refere-se concretamente ao desonesto livro de John Fuegi (1994).
Identifica uma dificuldade do leitor brasileiro (em função da moda da “metalinguagem” e de seus estragos; e o vezo de sideração do receptor) em reconhecer e valorizar a radicalidade autocrítica de Brecht. Esse “pânico insuperável da alteridade”, “base equívoca tanto das suspeitas doçuras quanto do entranhado fascismo nacional”, portanto, contrastando com Brecht que “faz da liberdade do receptor seu critério de excelência”.
Daí a insistência em encenações em nossos palcos do Brecht “apocalíptico”, da juventude, raramente alcançando suas qualidades; as peças da maturidade, em geral, sofrem uma erosão de seu caráter racionalista.
O autoquestionamento e a perspectiva “clássica”, voltada para a duração, pode ser vista também como efeito de distanciamento.
Como Brecht entende que o combate contra o capitalismo é de longo prazo, conferir longa duração às obras é dotá-las de alento tanto para as lutas imediatas quanto as vindouras.
Em Brecht, a autonomia da obra de arte é apenas um de seus recursos, por isso não há porque sacralizá-la. Seu interesse reside no valor crítico diante da alienação e da heteronomia. Daí a discrepância nas cobranças ferozes de “atualidade” de obras engajadas; enquanto nas ditas “autônomas”, gentilmente dispensadas das mesmas exigências, permite-se que vivam apartadas do mundo.
Como o capitalismo ainda se apresenta a muitos como ente fantasmagórico, é mister compreender que a vitalidade da obra de Brecht é decorrente de sua eficácia crítica, de teor anticapitalista. A vilipendiada dialética é a via de acesso ao real e a possibilidade de um mundo outro, no qual superemos a alienação e as heteronomias.
A presente edição ainda oferece uma cronologia dupla de W. B. e B., que mostra alguns dos percursos de ambos em contextos complexos e decisivos.
Por outro lado, entendemos que a bibliografia recomendada sobre estudos brasileiros e repercussões de Brecht e do teatro épico no país é autocentrada e circular em relação aos colaboradores.
De todo modo, a edição dos Ensaios sobre Brecht é convite excelente para o exercício da dialética e das reflexões necessárias para a transformação da realidade.


Referência

BENJAMIN, Walter. Ensaios sobre Brecht. Tradução Claudia Abeling. São Paulo: Boitempo, 2017. (Coleção: Marxismo e literatura).



[1] Agenor Bevilacqua Sobrinho é doutor em Artes Cênicas pelo CAC/ECA-USP e Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (IA-UNESP). É pesquisador do Grupo de Pesquisa Estudos histórico-críticos e dialéticos de teatro estadunidense e brasileiro (CNPq). Editor, dramaturgo e escritor, é autor de Atualidade/utilidade do trabalho de Brecht. Uma abordagem a partir do estudo de quatro personagens femininas, A Lente, A Guerra de Yuan, O Rato Pensador (todos pela Editora Cia. Fagulhawww.ciafagulha.com.br) e de vários artigos publicados em revistas especializadas. 
    Orcid: orcid.org/0000-0003-4528-8776. E-mail: editora@ciafagulha.com.br



  
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Conheça também:



Atualidade/utilidade do trabalho de Brecht [Uma abordagem a partir do estudo de quatro personagens femininas.]

Autor: Agenor Bevilacqua Sobrinho
Editora: Cia. Fagulha
ISBN 13:       978-85-68844-01-4
Páginas:       408



WhatsApp: (011) 95119-8357




RESENHA do livro “O RATO PENSADOR”, por Maria Sílvia Betti


RESENHA do livro “O RATO PENSADOR”,

por Maria Sílvia Betti

 


Que o pensamento seja sempre veículo da liberdade.

  

O Rato Pensador, de Agenor Bevilacqua Sobrinho.
Resenha de Maria Sílvia Betti – FFLCH-USP



RESENHA

SOBRE “O RATO PENSADOR”, de Agenor Bevilacqua Sobrinho.
Cia. Fagulha, Coleção Teatro na Escola.
Maria Sílvia Betti - Professora da FFLCH/USP - Universidade de São Paulo



"O RATO PENSADOR" e seu percurso de descobertas e reflexões.


"O Rato Pensador", fábula teatralizada por Agenor Bevilacqua Sobrinho, é a recriação de uma narrativa popular da Sardegna relatada pelo pensador Antonio Gramsci (1891-1937) em uma das cartas que escreveu do cárcere a Giulia, sua mulher. Desenvolvendo o enredo a partir da narrativa evocada por Gramsci, Agenor presta homenagem ao filósofo ao mesmo tempo em que traz ao público brasileiro a oportuna reflexão acerca da responsabilidade social presente na fábula sarda.
O vasto material epistolar deixado por Antonio Gramsci é rico em referências à importância do ato de narrar, assim como em reminiscências de infância impregnadas de menções a historietas correntes no contexto sardo do início do século.
Sendo a Sardegna contemporânea a Gramsci uma região pobre e marcada por problemas socioeconômicos, o paralelo estabelecido por Agenor com o contexto brasileiro do Nordeste e de regiões de baixa renda torna-se extremamente significativo. Esse é um dos aspectos centrais da fábula recriada e de sua encenação.
Um rato toma o leite que uma mulher, pobre e desempregada, estava reservando para o filho. O choro do menino e a frustração da mãe enchem o rato de remorsos. Disposto a reparar o erro, ele tenta proporcionar ao garoto o leite de que o havia privado, e acaba chegando a uma série de constatações que transformam seu olhar a respeito das relações sociais e do impacto delas sobre a natureza.
No percurso que assim se inicia, o rato é acompanhado por duas pequenas palhacinhas com as quais dialoga e com as quais comenta as dificuldades que encontra ao longo do caminho.
Um enredo simples e desenvolvido a partir de uma situação aparentemente desprovida de aventura leva a surpreendentes desdobramentos: ao contrário do que julga o rato, sua boa vontade individual não é suficiente para sanar o problema, cujas raízes são mais profundas do que ele supunha: a cabra, desnutrida, não tem pastagens para se alimentar, e portanto não pode lhe dar o leite desejado; o capim seco que cresce no campo devastado precisa de água que possa revitalizá-lo a fim de alimentar a cabra e dar-lhe forças para produzir o leite; a fonte, destruída pela guerra, deixa escorrer e perder-se a água que poderia irrigar o campo e fazer crescer o capim; o pedreiro, que não dispõe de pedras, não pode consertar a fonte, e a montanha onde se encontram as pedras sofreu o desmatamento e a erosão resultantes da ação dos especuladores, cujo interesse único é o lucro.
Toda uma conjuntura ampla e complexa vai sendo pouco a pouco desvendada pelo ratinho pensante. Em sua trajetória não faltam os atropelos motivados por encontros com representantes do saber acadêmico (personificado no autoritário Professor Atrapalhão), do tempo expropriado pelo mundo competitivo do trabalho (simbolizado na corrida desenfreada do personagem Atrasildo em sua maratona de compromissos e nas dezenas de relógios que leva consigo) e da incapacidade de transformação (associada ao personagem Apavorado, que nutre um medo supersticioso e apocalíptico de tudo à sua volta).
Ironicamente, a chave para lidar com esse conjunto intrincado de situações acaba sendo fornecida pela Bruxa, figura a quem o rato havia relutado em recorrer, a despeito dos conselhos recorrentes das palhacinhas. A imagem de uma feiticeira perversa e cheia de artimanhas cai por terra quando, vencendo o preconceito, o rato se dispõe a ouvi-la, e descobre nela uma mulher do povo, cuja sensatez e sensibilidade serão decisivas para levá-lo a encontrar a melhor forma de agir diante das situações que se apresentam.
Ao invés de mágicas e sortilégios, o rato encontra nas sugestões da mulher uma perspectiva de ação sobre a realidade à sua volta. As palavras dela apontam para um processo longo, e não para uma solução imediata, e a transformação produzida virá apenas com o tempo: para que o menino tenha o leite, é preciso que a consciência interfira na sociedade e na natureza. A imagem do dominó, sugestivamente presente na brincadeira das crianças no início do espetáculo, funciona como metáfora de toda a cadeia causal de circunstâncias com as quais o rato irá se defrontar e que irão desencadear o seu processo de reflexão e aprendizado.
A fábula de Agenor incorpora à matéria-prima da narrativa de Gramsci um importante elemento de reforço de seu sentido crítico, que é a presença constante do ato de narrar: o rato relata os acontecimentos às duas palhacinhas que o acompanham, e, ao fazê-lo, constrói um olhar sobre eles, permitindo que sejam postos em discussão.
As meninas, que veem de fora a sequência dos fatos, interagem e opinam; o rato, colocado diante de suas interlocutoras, critica-as na mesma medida em que compartilha com elas toda a sua aflição.
Também as figuras de Atrapalhão, Atrasildo e Apavorado funcionam como elementos emblemáticos inseridos por Agenor na estrutura da fábula sarda, e permitem uma referência crítica ao mundo da escola, do trabalho e das relações sociais, respectivamente.
A questão ecológica, que perpassa todo o texto, é indissociável da existência da guerra e da exploração da natureza e do trabalho, aspectos que conferem ao espetáculo uma grande riqueza de possibilidades sob o ponto de vista pedagógico.
Gramsci, aprisionado em 1927 e morto dez anos depois, passou sua última década de vida entre o cárcere e as clínicas de saúde, sempre em regime de liberdade vigiada. Na época de sua prisão, seu filho mais velho, Delio, a quem ele não tornaria a ver após ser preso, tinha então três anos de idade, e o mais novo, Giuliano, que ele só conheceu por fotos e cartas, ainda não era nascido.
O desejo de transmitir a eles afeto e experiência foi avidamente canalizado por Gramsci através das cartas, e encontrou em lembranças de infância e em narrativas folclóricas um importante veículo de comunicação com os meninos. Vem daí o cuidado didático e afetuoso com que o filósofo instrui Giulia a recontar a fábula aos garotos: "gostaria de contar agora a Delio uma história da minha terra que me parece interessante. Vou resumi-la para você e você a desenvolverá para ele e para Giuliano".
O resumo feito pelo filósofo não edulcora os elementos originais da narrativa popular, como acontece, via de regra, em narrativas contemporâneas de contos infantis tradicionais. Gramsci preocupa-se em transmitir a Giulia o arcabouço de fatos de forma objetiva e despojada. Isso comprova a eficácia do material narrativo contido no enredo da fábula, que se apresenta rica de elementos a serem, tal como ele recomendou à esposa, desenvolvidos no relato aos meninos.
Ao contrário do que ocorre nos contos de fadas convencionais e nas histórias de aventuras, a riqueza da fábula não está contida nas ações praticadas, mas no conjunto de relações que elas desvelam e na presença implícita daquilo a que Gramsci se refere, em sua carta, como "um verdadeiro plano próprio de trabalho, orgânico e adaptado a um país arruinado pelo desmatamento". Nada mais adequado, portanto, do que o título "O Rato Pensador", referência a um itinerário de descobertas que levam à construção de um pensamento crítico.
A concepção essencial da fábula recriada por Agenor se faz presente na concretização de um preceito essencial que remete não apenas ao pensamento de Gramsci mas também ao do dramaturgo e pensador teatral Bertolt Brecht (1898-1956): as coisas e as conexões mais triviais devem ser examinadas atentamente e discutidas, pois em sua forma e nas relações que constroem existem aspectos importantes a serem conhecidos e dominados. "Em tempo de desordem sangrenta," diz Brecht, "de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar." Esse é, justamente, o espírito do trabalho desenvolvido por Agenor Bevilacqua Sobrinho em seu espetáculo "O Rato Pensador".


Maria Sílvia Betti
Professora da FFLCH/USP – Universidade de São Paulo


Serviço:

O Rato Pensador
Autor: Agenor Bevilacqua Sobrinho
Editora: Cia. Fagulha
ISBN 10:       85-902373-1-1
ISBN 13:       978-85-902373-1-0
Páginas:        60
WhatsApp: (011) 95119-8357


O Rato Pensador – Agenor Bevilacqua Sobrinho

 


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