Showing posts with label Brecht. Show all posts
Showing posts with label Brecht. Show all posts

Chapetuba F. C. e A mais-valia vai acabar, seu Edgar. Por Maria Sílvia Betti

 

Chapetuba F. C. e A mais-valia vai acabar, seu Edgar. Por Maria Sílvia Betti




As duas primeiras peças propostas para o primeiro Encontro são bastante diferentes entre si, tanto em termos de estilo como em termos de recursos dramatúrgicos mobilizados.

Chapetuba foi escrita dentro dos Seminários de Dramaturgia organizados no Teatro de Arena de São Paulo em 1959, e é uma peça realista e de carpintaria teatral bem engendrada. A motivação de cada cena é apresentada e desenvolvida por meio de ação, e resolvida numa sequência de acontecimentos cujo epicentro é a disputa pela vitória do time local da cidade de Chapetuba no Campeonato da Segunda Divisão de Futebol. A vitória trará à cidadezinha um influxo de progresso e desenvolvimento econômico e social ansiosamente esperado por toda a população.

A mais-valia vai acabar, seu Edgar, de 1960, é uma peça épica que utiliza recursos de revista teatral com músicas e humor, e que discute em cena o funcionamento do processo de exploração da mão de obra assalariada dentro da produção de mercadorias. As personagens são representativas de suas classes dentro da estrutura econômica da sociedade capitalista: de um lado temos quatro Capitalistas (C1, C2, C3 e C4), donos dos meios de produção, e de outro, quatro Desgraçados (D1. D2, D3 e D4), trabalhadores oprimidos e explorados. Um desses Desgraçados, pitorescamente denominado D4, sente-se instigado a investigar a questão central da origem do lucro dos patrões e da miséria da classe trabalhadora. A peça coloca em cena os mecanismos pelos quais essa investigação se realiza e a compreensão final a que ela conduz.

A análise dessas duas peças nos dará elementos para detectar, já nesta fase inicial do trabalho de Vianna, duas matrizes importantes que teriam desdobramentos diversos DENTRO de sua dramaturgia: a da peça realista, apoiada na ideia de uma crônica de costumes como base para a crítica de processos sociais mais amplos, e a da peça épica, nesse momento de aporte da dramaturgia de Brecht e do pensamento de Erwin Piscator no Brasil.

 

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
 
CARBONE, Roberta. O trabalho crítico de João das Neves no jornal Novos Rumos em 1960: perspectivas sobre a construção. Dissertação de mestrado (ECA-USP). São Paulo, 2014. https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27156/tde-20012015-152056/pt-br.php
 
GUARNIERI, Gianfrancesco; VIANNA FILHO, Oduvaldo. A pipa de Diógenes. Organizado por Ligia Balista, Juliana Caldas. São Paulo: Edições Jabuticaba, 2022.
 
VIANNA FILHO, Oduvaldo. Peças do CPC: a mais valia vai acabar seu Edgar e mundo enterrado. 1. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2018.
 
VIANNA FILHO, Oduvaldo. Teatro de Oduvaldo Vianna Filho: v. 1, organização de Yan Michalski. Rio de Janeiro: Ilha, 1981.



Inscrições gratuitas

https://forms.gle/58jmwmc2JXdMf23s7



Apoio: Blog da Cia. Fagulha

https://blogdaciafagulha.blogspot.com/

 

Realização:

https://www.ciafagulha.com.br/



Fagulha compartilha 2 – Artigos, análises, poemas, poesias, resenhas, prefácio - #FagulhaCompartilha

 

Fagulha compartilha 2 – Artigos, análises, poemas, poesias, resenhas, prefácio - #FagulhaCompartilha

  

Editora Cia. Fagulha compartilha 2

 

 

Blog da Cia. Fagulha - https://blogdaciafagulha.blogspot.com/

 

Blog da Cia. Fagulha. Bem-vindxs!

 

Blog do Agenor Bevilacqua Sobrinho - https://agenorbevilacquasobrinho.blogspot.com/

 

 

Educação, Literatura e Política

Dez livros para conhecer o Brasil. Por Antonio Candido

Render-se ou respirar e resistir. Surrendering or to breathe and resist. Danielle do Nascimento Rezera & Agenor Bevilacqua Sobrinho

Enfrentando distopias contemporâneas: por uma disputa contra-hegemônica. Por Danielle do Nascimento Rezera, Agenor Bevilacqua Sobrinho

A educação de crianças e jovens durante a pandemia da covid-19. “Tem alguém aí, ou vamos apenas cumprir tarefas?” Por Danielle do Nascimento Rezera e Raquel Gomes D'Alexandre

Professores, avanços tecnológicos e taxa de sucesso. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Como funciona a teoria do caos na prática. Parte 1 e 2. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Mito da caverna. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Mercenários. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Moralândia. Capítulo 1. Habitantes de Moralândia alimentam-se de fantasias peculiares. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Moralândia. Capítulo 2. Partido único e perseguição a dissidentes. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Moralândia. Capítulo 3. Monarquia teocrática e nazifascista. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Moralândia. Capítulo 4. A classe dominante. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Moralândia. Capítulo 5. Deus-Pátria-Família. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Moralândia. Capítulo 6. A revolta evanjegue está na origem de Moralândia. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Distorções produtivistas na universidade. Por Maria Sílvia Betti e Eduardo Campos Lima

Literatura, memórias e dramaturgia. Por Maria Sílvia Betti

 

 

Psicanálise

Freud

Psicanálise e Poder: a leitura de Freud do Moisés de Michelangelo. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

 

 

Teatro

Augusto Boal

O IMPULSO E O SALTO: Boal em Nova Iorque (1953-1955). Por Maria Sílvia Betti


Brecht

A respeito de Ensaios sobre Brecht, de Walter Benjamin. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Bertolt Brecht nos EUA: um refugiado anticapitalista na pátria do capital. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

A Guerra e outros combates. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Baal, de Bertolt Brecht. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

 

Cia. do Latão

História e luta política em ação: “7 peças” da companhia do Latão, um coletivo contemporâneo de teatro dialético. Por Maria Sílvia Betti

 

Erwin Piscator – Judith Malina

"The Piscator Notebook", de Judith Malina: apontamentos de análise sobre o registro de um processo formativo. Por Maria Sílvia Betti

 

Heiner Müller

Hamlet Ex-Máquina – Apontamentos. Por Maria Sílvia Betti

 

Lehmann

Um teórico posto em questão: o teatro político na abordagem de Hans Thies Lehmann. Por Maria Sílvia Betti


Oduvaldo Viana Filho - Vianinha

Curso Dez vezes Vianinha - Sobre Oduvaldo Vianna Filho. Por Maria Sílvia Betti

Oduvaldo Vianna Filho e a tragédia. Por Maria Sílvia Betti

A longa noite de Cristal, de Oduvaldo Vianna Filho – Montagens de 1970 e 1976

Autoritarismo e luta política na pauta de uma peça fundamental do teatro brasileiro: Papa Highirte, de Oduvaldo Vianna Filho. Por Maria Sílvia Betti

“Papa Highirte”, de Oduvaldo Vianna Filho: apontamentos de análise dramatúrgica. Por Maria Sílvia Betti

Sobre A invasão dos bárbaros e Papa Highirte dirigidos por Tin Urbinatti. Por Maria Sílvia Betti

FFFFFIIIIICCHHHAAAAA TÉCNICA PAPA HIGHIRTE. Por Tin Urbinatti

Programa de Rasga Coração, peça de Oduvaldo Vianna Filho – Montagem Rio de Janeiro – Direção de José Renato

Dois aspectos da atualidade de Rasga coração. Por Maria Sílvia Betti

Rasga Coração: é melhor ler o livro. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

“Rasga Coração”, de Oduvaldo Vianna Filho: Perspectivas formais da representação sócio-histórica. Por Maria Sílvia Betti

Você sabia? Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Calabar, Rasga Coração e Patética: Três peças em luta contra a censura. Por Maria Sílvia Betti

Entrevista: Maria Silvia Betti fala sobre a publicação de “Rasga Coração” e as peças de Oduvaldo Vianna Filho. Por Fernando Pardal

“Rasga Coração” de Vianinha: um olhar crítico sobre as velhas formas do “novo”. Por Fernando Pardal

Carbono 14 estético. Em busca de dramaturgos essenciais. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho


Tapa e Arena

Tapa e Arena: uma ponte na história. Por Maria Sílvia Betti


Teatro e movimentos sociais

Teatro e movimentos sociais na cidade de São Paulo: um recorte comentado. Por Maria Sílvia Betti


Teatro de figuras alegóricas

Ingrid, Brueghel e o teatro de figuras alegóricas. Por Maria Sílvia Betti

 

 

Teatro estadunidense

Crítica e indicações bibliográficas

Onze livros para o conhecimento do teatro estadunidense no Brasil. Por Maria Sílvia Betti

Leituras críticas de dramaturgia moderna. Críticos estadunidenses fundamentais (Gassner, Bentley e Carlson). Por Maria Sílvia Betti


Arthur Miller

Dois pequenos textos sobre o teatro de Arthur Miller. Por Maria Sílvia Betti


Bread & Puppet

Bread & Puppet Theater, radicalismo e história. Por Mayumi D. S. Ilari


Edward Albee

Quem tem medo de Virginia Woolf? De Edward Albee. Breves observações de análise. Por Maria Sílvia Betti


Lillian Helman

Lillian Hellman: marco do teatro estadunidense moderno no século XX. Por Maria Sílvia Betti


Tennessee Williams

A Catástrofe do Sucesso - Tennessee Williams - On A Streetcar Named Success - by Tennessee Williams

 

 

Poemas / Poesias e outros escritos

O Tempo. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

A lenda do soldado morto – Bertolt Brecht

Aos que vão nascer. Bertolt Brecht

Aquele que duvida – Bertolt Brecht

Mau tempo para a juventude – Bertolt Brecht

Cinco maneiras de dizer a verdade. Bertolt Brecht

 

 

Resenhas / Prefácio

RESENHA do livro “O RATO PENSADOR”, por Maria Sílvia Betti

A Guerra de Yuan, de Agenor Bevilacqua Sobrinho. Prefácio de Mayumi Denise Senoi Ilari – FFLCH-USP

Teorias do teatro - estudo histórico-crítico dos gregos à atualidade - Marvin Carlson. Inventário do pensamento teatral - Resenha de Maria Sílvia Betti

Resenha de “Panorama do Rio Vermelho. Ensaios sobre teatro norte-americano moderno”. Iná Camargo Costa. São Paulo, Nankin Editorial, 2001. Por Maria Sílvia Betti

 

 

Confira também:

Fagulha compartilha 1 - Textos, vídeos de cursos e entrevistas

https://blogdaciafagulha.blogspot.com/2021/12/fagulha-compartilha-textos-videos-de.html

#FagulhaCompartilha

 

 

Apoio à Editora Cia. Fagulha:

Para oferecermos constantemente novos materiais (cursos, vídeos, artigos, entrevistas etc.), você pode apoiar-nos com qualquer quantia pela Chave PIX: editora@ciafagulha.com.br

 

Inscreva-se no canal.

 

Curta o vídeo.

 

Quaisquer dúvidas, a equipe da Editora Cia. Fagulha está à disposição

para quaisquer esclarecimentos:

 editora@ciafagulha.com.br

 

www.ciafagulha.com.br

 

Baal, de Bertolt Brecht. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho


Baal, de Bertolt Brecht. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho


Orcid: orcid.org/0000-0003-4528-8776


Publicado anteriormente em: Revista Crop, n. 14/2010. Revista de Estudos Linguísticos e Literários em Inglês. FFLCH-USP 




Baal, de Bertolt Brecht. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho [1]


Resumo

Este trabalho acompanha o poeta andante que devora, dança e glorifica-se. Observa o questionamento do artista sobre o preço da existência e sua disposição em pagá-lo. Ademais, analisa o apetite insaciável cujo atendimento repõe a sede de imediato.

Palavras-chave: Baal, instintos, satisfação, associal.


Abstract


This paper outlines the errant poet who devours, who dances and glorifies himself. It observes the artist’s questioning about the price of existence and his willingness to pay for it. Furthermore, it analyzes the insatiable appetite whose attendance immediately restores the thirst.

Keywords: Baal, instincts, satisfaction, unsociable.





Introdução

Bertolt Brecht (1898-1956), que não nutria muito carinho pela propriedade privada, muitas vezes, criava a partir de obras de outros, dando-lhes enfoques diversos e extraindo-lhes virtualidades ocultas e, até mesmo, distorcendo-as pela paródia.
Baal [2] tinha na peça O solitário, de Hanns Johst, referências de situações e nomes muito próximos. Entretanto, Brecht estava em desacordo com o falso idealismo e o sentimentalismo com que Johst expôs a vida de um personagem dissoluto (ESSLIN, 1979, p. 24). A linguagem empregada expressa apaixonada aceitação do mundo em toda a sua sórdida grandeza (Ibidem, p. 285).
A terceira versão de 1926 era consideravelmente distinta da de 1918, na qual a identidade de Brecht com o poeta era mais explícita: crítico teatral mordaz e uma mãe que lhe recomendava as boas ações.
O maior dramaturgo do século XX criara sua primeira peça, mas o trabalho épico só apareceria após árdua reflexão. John Willett ressalta que o épico não estava configurado nem mesmo em Um homem é um homem (1924-1925) [3]:
It is misleading to treat this play itself as the first 'epic', as some interpreters do, for it is formally no more epic than Baal. But the production was of great importance to Brecht and to his theory, for not only was it in other respects new and compelling, but it marked a deliberate attempt to hold the spectator at arm's-length, so that he would keep his critical judgment throughout. In terms not unlike Claudel's Brecht asked the audience for 'an attitude corresponding roughly to the reader's method of thumbing through a book and checking back'; while the actor was advised, much as in Pirandello, 'not to make the spectator identify himself with individual sentences and thus get caught up in contradictions, but to keep him out of them'. (…)
But such precedents were unknown to Brecht when he actually wrote this play; or even The Threepenny Opera and Mahagonny; and his whole picture of the 'epic theatre' seems then to have been in a very sketchy state. It is only with the didactic works of the 1930s that the new theoretical requirements are clearly posed and met. (WILLETT, 1959, p. 176)

Para Fredric Jameson (1999, p. 22), Baal é obra de juventude. Brecht tentou, posteriormente, domesticá-la e interpretá-la como a expressão do associal (der böse Baal der asoziale). Associal, mas numa sociedade do mesmo tipo.

Em Baal, a oposição de gênero, na qual a atividade peremptória é oposta a uma espécie de passividade absoluta, será na produção posterior repensada (JAMESON, op. cit., p. 24).


A volúpia

Já em sua primeira peça, Brecht construiu autonomia entre as cenas, deixando de lado a unidade de ação; as canções existem, embora ainda não estejam questionando o teatro hipnótico.

No texto de 1919, já se podia perceber o delineamento mais específico de Baal: ele é solitário e coerente com o mundo que o devora.

Na história de Baal e seu amante Ekart (Verlaine e Rimbaud?) [4], desenha-se a trama de uma personagem loquaz que quer a satisfação de seus instintos sem fronteiras.

Inicialmente, o Coral do Grande Baal canta o nascimento e a peregrinação do poeta no mundo, bem como seu retorno à mãe terra. Depois, 22 cenas nos fazem vislumbrar esta passagem caótica e veloz.

A primeira nos remete aos limites, ao enquadramento social a que querem sujeitar o artista: lá estão os senhores com suas “salas e mulheres brancas”; lá está Mech, rico negociante madeireiro [5] e editor; Pschierer, o diretor de águas e esgoto; Piller, o crítico que diz controlar a imprensa, e, portanto, poderia enaltecer o poeta [6] quanto quisesse, desde que ele, é claro, se vendesse [7].

O poeta se dirige à sociedade burguesa, que pretende castrá-lo e que ele a afronta com as armas disponíveis, seus recursos de expressão: dinamite, não palavras pacíficas e libadas por todo mundo (DESUCHÉ, 1968, p. 92-93).

Baal demonstra-se arredio; despreza os burgueses porque querem sujeitá-lo, impor-lhe limites hipócritas, normatizá-lo. Baal, todavia, é coerente com o sistema, mas não com suas regras [8], as quais exigem subserviência dos que a elas estão submetidos, quando seus promotores e agentes escondem-se e desrespeitam os códigos, válidos apenas para os outros.

Assim, os marginais e rejeitados encontram em Brecht não só um interlocutor, mas, também, um canal de expressão de suas ansiedades e angústias... Um mundo até então encoberto tem sua entrada e passagem na cena teatral alemã; inaugura-se, naquele espaço, antes local de reverência à “boa família”, um deslocamento de visão de mundo: para muitos, Brecht trazia ao palco outro mundo, povoado por outras espécies de seres. No entanto, a fala era


(...) mesclada com a linguagem da Bíblia de Lutero e encaixada nos padrões fragmentados aprendidos com Büchner - mas tudo inequivocamente Brecht.
(EWEN, 1991, p. 83)


Brecht tece loas à revolução, citando um poema por meio da Jovem Senhora, no qual se compreende que haverá Novo Mundo apenas exterminando o mundo da dor (BRECHT, 1986, p. 20).

Segundo Ronald Gray (1979, p. 34), Brecht teria posto em Baal mais do que se dera conta naquele momento. Depois, retoma-o modificado e com menos aspectos repulsivos no juiz Azdak, de O círculo de giz caucasiano (1943-1945). Durante o breve período de autoridade de Azdak, o povo desfruta de uma prévia do que seria o homem liberado da Idade de Ouro.

Porém, por ora, estamos no mundo dilacerante. E precisa-se, então, engrossar o casco [9] e voltar às origens [10], por temor à fascinante grande cidade que carimba as pessoas com seu cuspe [11].

Baal é associal, mas numa sociedade associal.
(BRECHT apud EWEN, 1991, p. 84)

Dessa forma, não se deve exigir do homem que ele seja um “super-homem”.

Baal — Tem que beber. Um ser humano é um ser humano. (BRECHT, 1986, p. 26)

Homem é homem, nisso são todos iguais. (Ibid., p. 63)


Contudo, em Baal, se existe um esboço de crítica social, esta permanece ambígua, abstrata, puramente instintiva. Em 1939, Brecht reconhece que seus conhecimentos políticos eram excessivamente limitados em sua juventude (WEIDELI, 1983, p. 15-16).

O dramaturgo alemão observa: os homens são arbitrários, gananciosos, estúpidos, indefesos, agressivos, cruéis, perversos... E, além de tudo, moralistas, como na fala do carroceiro referindo-se a Emilie:

...é adúltera! ...Tem que levar porrada! (BRECHT, 1986, p. 30)

Por outro lado, o autor ridiculariza os que mandam:

Carroceiro III — Você não tem vergonha de ser infiel! disse a patroa ao criado, quando o pegou trepando com a criada! Gargalhadas. (Ibid., p. 27)

Além disso, não podemos deixar de enfatizar que o contexto histórico da produção de Baal é caracterizado por instabilidade visceral que permeia a vida social. Brecht mostra a “aversão consciente ao mundo dos valores burgueses, mesmo que tudo pareça acontecer sem uma fundamentação objetiva”. É verdade que já temos “a construção da peça em cenas independentes” e “a introdução de canções, que ainda não exerce a função de quebra de ação dramática: Brecht não supera, nem pretende superar, o teatro hipnótico” (BORNHEIM, 1992, p. 53).

Baal passeia pelo cenário (Augsburg, a cidade de Brecht) e seus ambientes sórdidos com desenvoltura.

Mas, o poeta permanece fiel a si mesmo. A traição atormenta a mente de Baal/Brecht. Todos traem!, então não convém ficar só nesse jogo [12]. Como o destino é incontrolável [13] e ininteligível, exalta-se o instante, que se esvai de maneira instantânea. Recrutar energia para o “aqui e agora”. Depois o descaso será subornado por um bom descanso, mérito do preguiçoso.

Quanto às mulheres, não têm lugar privilegiado na economia de Baal, uma vez que são todas iguais; trazem problemas.

Lenhador III — Mas (Teddy) arruinou o negócio por causa das mulheres. (BRECHT, 1986, p. 47)

Baal! Seu apetite insaciável o faz devorar e engravidar-se de mundo; glutão, nenhum recipiente é tão grande que possa receber seu vômito de coisas, pessoas, situações...; porém, é esgarçando os territórios e experimentando de tudo que ele completa-se e volta a esvaziar-se para nova “depenação de cisnes”, cantorias, bebedeiras...

Apetite incontido que transborda por todos os poros, Baal se emancipa de controles; é arredio a comandos. Quer ordenar-se, ou melhor, ser conduzido por suas paixões e impulsos. Obedece, sim. Mas apenas suas inclinações dissonantes; e por ela sacrifica amores, amizades... Afogando-se em suas disposições.

“Baal precisa ser episódico: a figura do apetite deve irromper e quebrar a mobília, mas ela não pode evoluir, ela não conhece nenhuma história interessante a não ser a da exaustão final e da morte.” (JAMESON, op. cit., p. 23) Isso ainda não é cinismo brechtiano e nem mesmo camada histórica (Ibid., p. 24), mas a visão de materiais meramente sólidos e resistentes.

Um momento de dissolução. No hiato do desaparecimento da figura do pai, o Kaiser e o resto, emergem as revoltas obscuras de todos os tipos, e antes que a nova ordem do mundo moderno (Weimar) tenha se estabelecido (Loc. cit.).

E o que ocorre quando os apetites não são saciados?

O entorpecimento dos sentidos [14]. E a descrença [15].

Mas Baal é forte. Um “elefante”. E também um connaisseur. Ensina a Johannes [16] o que é o amor e seus mistérios; aconselha Sophie — que quer desvencilhar-se dele, alegando precisar ir para casa por causa da mãe de 60 anos — a não se prender a preocupações inúteis, pois com essa idade a mãe:

Baal — (...) já se acostumou à desgraça. (BRECHT, 1986, p. 38)

Os sons da guerra (1914-1918) são ensurdecedores; quando vão parar de repercutir?

Por esses motivos, é preciso aproveitar a vida. Logo serviremos de adubo ao mundo.

Os casos com homens e mulheres são dependentes de seus caprichos e veleidades. Seduz e leva mulheres à prostituição; provoca a morte delas com sua indiferença; é o herói do submundo e abandonado por este também.

A solidão de Baal é a desconsolada solidão do intelectual na competição sempre mais caótica da sociedade moderna (associal), cuja resposta paradoxal é descer à esfera do biológico para defender-se da organização opressiva (CHIARINI, 1967, p. 22-23).


Conclusão

Mas a vida cobra-lhe tributo: ao matar seu amante Ekart é perseguido pelos policiais. Os quais recitam o curriculum de Baal: Guardas — (...) assassino, artista de cabaré e poeta. Depois, foi dono de carrossel, lenhador, amante de uma milionária, preso e gigolô (...) Matou Ekart por causa de Sophie (prostituída) (...) Apesar de tudo, ele é muito infantil. Ajudou umas velhas a carregar lenha, e com isso foi apanhado. Nunca possuiu nada. A garçonete era a última coisa que lhe restava. (BRECHT, 1986, p. 70)

Foge para a floresta e é menosprezado por alguns lenhadores numa cabana, na qual morre só como um animal; aliás, consoante com sua vida bestial.





Referências bibliográficas


BORNHEIM, Gerd. Brecht. A estética do teatro. Rio de Janeiro: Graal, 1992.

BRECHT, Bertolt. Baal. In: Teatro Completo. Tradução de Márcio Aurélio e Willi Bolie Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986, v. 1, p. 11-74.

CHIARINI, Paolo. Bertolt Brecht. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967. (Col. Teatro hoje)

DESUCHÉ, Jacques. La técnica teatral de Bertolt Brecht. Introd. y trad. de Ricard Salvat. Barcelona: Oikos-Tau, 1968.

ESSLIN, Martin. Brecht: dos males, o menor. Um estudo crítico do homem, suas obras e suas opiniões. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

EWEN, Frederic. Bertolt Brecht: sua vida, sua arte, seu tempo. São Paulo: Globo, 1991.

GRAY, Ronald. Brecht dramaturgo. Madrid: Ultramar, 1979.

JAMESON, Fredric. O método Brecht. Tradução de Maria Sílvia Betti. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

WEIDELI, Walter. Bertolt Brecht. México: Fondo de Cultura Económica, 1983.

WILLET, John. The Theatre of Bertolt Brecht: A study from eight aspects. London: Methuen, 1959.

_______________________________


Notas

[1] Agenor Bevilacqua Sobrinho é doutor em Artes Cênicas pelo CAC/ECA-USP e Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (IA-UNESP). É pesquisador do Grupo de Pesquisa Estudos histórico-críticos e dialéticos de teatro estadunidense e brasileiro (CNPq). Editor, dramaturgo e escritor, é autor de Atualidade/utilidade do trabalho de Brecht. Uma abordagem a partir do estudo de quatro personagens femininasA LenteA Guerra de YuanO Rato Pensador (todos pela Editora Cia. Fagulhawww.ciafagulha.com.br), além de diversos artigos sobre arte crítica, teatro, política e sociologia em revistas especializadas, como A resistível ascensão de Bushad’óleo (Margem Esquerda n. 5, Boitempo Editorial), Bertolt Brecht nos EUA: um refugiado anticapitalista na pátria do capital (Rebento: Revista de Artes do Espetáculo, v. 5, 2015) e A respeito de Ensaios sobre Brecht, de Walter Benjamin (Revista Dramaturgia em foco, v. 2, n. 2, p. 151-156, 2018).
Orcid: orcid.org/0000-0003-4528-8776. E-mail: editora@ciafagulha.com.br

[2] Escrita entre 1918 e 1919, estreia no dia 08 de dezembro de 1923, em Leipzig.

[3] Estreia em Darmstadt, em 1926.

[4] “A linguagem da peça de Brecht, muitas vezes, se assemelha à de Iluminações e Uma estação no inferno, de Rimbaud. Além disso, em Baal: o expressionismo é parodiado por meio da declamação de Johannes Becker e Georg Heyn; e o romantismo musical de Johst e seu culto à Beethoven, pelo uso mordaz de temas de Tristão e Isolda, que sardonicamente sublinham os amores desromantizados de Baal” (EWEN, 1991, p. 83). Sobre o caso de Verlaine e Rimbaud, podemos lembrar, também, George Garga e Shlink em Na selva das cidades (Ibid., 1991, p. 101).

[5] Presença reiterada em Na selva das cidades, na figura de Shlink, o malaio dono do truste de madeira. Ressalte-se, ainda, que a preocupação ecológica do jovem Brecht, já em sua primeira peça, leva Baal a questionar o poder de Mech. E dar-lhe o troco: Baal desdenha os ricos, odeia os burgueses, e é amante de Emilie, a mulher do negociante, a quem humilha.
   “Mech — Florestas inteiras de canela flutuam rio abaixo no Brasil. Só pra mim... Mas também posso editar seus poemas.” (BRECHT, 1986, p. 18-19)
   “Baal — Há troncos de canela flutuando para você, Mech? Florestas inteiras abatidas? (...) Animais também fazem parte dos seus negócios, Mech?” (p. 22)

[6] Tradição desde os classicistas alemães, glorificar os representantes da sabedoria é imperativo, já que somente a crueldade do mundo não percebe o valor do poeta (Cf. EWEN, 1991, p. 80).

[7] Aqui, notamos a visão pouco lisonjeira de Brecht a respeito da crítica. Vendendo-se, Baal tornar-se-ia útil.
   “Baal — Não tenho camisas. Preciso de camisas brancas.” (BRECHT, 1986, p. 21)
   “Piller — Neste momento, as camisas flutuam rio abaixo, Baal. Logo atrás dos poemas.” (Ibid., p. 22)

[8] Desafia a moral burguesa, daí a razão de sua derrota.

[9] “Ekart — Eu não tenho a sua pele de elefante.” (BRECHT, 1986, p. 53)
   “Baal — Caminho com solas grossas, desde que voltei a ficar outra vez sozinho.”
   Casco, engrossar a pele: tema recorrente em Brecht. A propósito, ver Na selva das cidades.

[10] Às origens, ou seja, à floresta, ao mundo da infância onde se estava protegido, ou da animalidade natural.
   “Ekart — Quero voltar para as florestas.” (BRECHT, 1986, p. 67)
   “Baal — Vou-me embora para as grandes florestas.” (Ibid., p. 69)

[11] O “cuspe na cara” é a certidão daqueles que estão na cidade, marca indelével para advertir o lugar de cada um Na selva das cidades. Como na fala do Homem II:
   “Vou-lhe deixar uma lembrança!” cospe-lhe na cara. (BRECHT, 1986, p. 72)
   Todavia, Baal ri da desonra: não teme as experiências.

[12] Ironicamente, Brecht põe a fala na boca de uma mulher.
   “Cançonetista — (Sobre Baal) Ele trabalha só para pagar a amante. É um gênio. Lupu imita-o descaradamente. Adotou seu jeito e até a amante.” (BRECHT, 1986, p. 42)

[13] “Lenhador IV — O destino acerta sempre as pessoas erradas.” (BRECHT, 1986, p. 47)

[14] “Bêbado — Acendam a luz! Nem se consegue achar a própria boca.” (1986, p. 68)

[15] “Baal — Sempre acreditei em mim. Mas podemos nos tornar ateus.” (1986, p. 57)
   Quando se duvida das forças, nem eu (Baal) sou Deus.

[16] Johannes (Becker?) passa a conhecer no bar a alegria popular (1986, p. 27).



_________________________________





*****


Conheça também:



Atualidade/utilidade do trabalho de Brecht [Uma abordagem a partir do estudo de quatro personagens femininas.]
Autor: Agenor Bevilacqua Sobrinho
Editora: Cia. Fagulha
ISBN 13:       978-85-68844-01-4
Páginas:       408









WhatsApp: (11) 95119-8357



16 de julho - 52 anos da morte de Oduvaldo Vianna Filho, dramaturgo fundamental do teatro brasileiro no século XX. Por Maria Sílvia Betti

  16 de julho: 52 anos da morte de Oduvaldo Vianna Filho,  dramaturgo fundamental do teatro brasileiro no século XX. Por Maria Sílvia Betti ...

Postagens populares