Você sabia? Por Agenor Bevilacqua Sobrinho


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BEVILACQUA SOBRINHO, Agenor. Você sabia? [Artigo na internet]. São Paulo: Blog da Cia. Fagulha, 2020. Disponível em: <https://blogdaciafagulha.blogspot.com/2020/08/voce-sabia-por-agenor-bevilacqua.html>. Acesso em: dia mês ano.


Resumo:
Pesquisa sobre as peças “Rasga o Coração” (1969), de João das Neves, e “Rasga Coração” (1974), de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. Deste, acompanhamos algumas críticas a respeito de seu trabalho, além de verificar os ganhadores dos Prêmios SNT - Serviço Nacional de Teatro de 1968 e 1974, por meio de pesquisa na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, Brasil.

Palavras-chave: João das Neves, Lana Bittencourt, Oduvaldo Vianna Filho, Papa Highirte, Rasga Coração, Rasga o Coração, Vianinha, Yan Michalski, SNT, premiados do SNT, Serviço Nacional de Teatro, 1968, 1974.




Você sabia? Por Agenor Bevilacqua Sobrinho [1]




Rasga o Coração, de João das Neves
Fonte: Jornal Correio da Manhã, 1969



1.
João das Neves tem uma peça de teatro chamada “Rasga o Coração”, 1969.
Elenco: Lana Bittencourt, Sidney Magalhaes e o conjunto Os Bitten.
Direção Musical de Geny Marcondes.
Texto e Direção: João das Neves.
Produção de Jaci Mota.

Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha) tem o texto “Rasga Coração”, premiado pelo SNT – Serviço Nacional de Teatro em 1974.

Rasga Coração, de Vianinha, é o vencedor do Prêmio SNT 1974.
Fonte: Jornal do Brasil, 08 de abril de 1975, 1º Caderno, p. 20.

Concurso de Peças no SNT.
Fonte: Jornal do Brasil, 12 de abril de 1975, Caderno B.


Macksen Luiz: Com o fim do concurso, o início do diálogo.
Fonte: Jornal do Brasil, 12 de abril de 1975, Caderno B.

Yan MichalskiCinco meses de obsessão dramatúrgica.
Fonte: Jornal do Brasil, 12 de abril de 1975, Caderno B.


“Rasga Coração”, e os outros premiados.
Fonte: Jornal do Brasil, 12 de abril de 1975, Caderno B.


2.
Em 1968 os premiados pelo SNT foram:
1º lugar – Papa Highirte, de Oduvaldo Vianna Filho.
2º lugar – A Construção, de Altimar Pimentel.
3º lugar – Suave é a bomba, de Luiz Carlos Saroldi.


Fonte: Yan Michalski, Jornal do Brasil, 1968, p. 2, Edição 00157.


3.
Conheça a homenagem do crítico Yan Michalski por ocasião do falecimento de Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha)
Nascimento‎: ‎4 de julho de 1936 (RJ).
Morte‎: ‎16 de julho de 1974 (38 anos) (RJ).

Yan Michalski. Vianinha – Trajetória de uma geração.

Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, quinta-feira, 18 de julho de 1974, Caderno B, p. 2.

Observação: Pesquisa realizada no Acervo Digital da Hemeroteca da Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro).




   [1] Agenor Bevilacqua Sobrinho é doutor em Artes Cênicas pelo CAC/ECA-USP e Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (IA-UNESP). É pesquisador do Grupo de Pesquisa Estudos histórico-críticos e dialéticos de teatro estadunidense e brasileiro (CNPq). Editor, dramaturgo e escritor, é autor de Atualidade/utilidade do trabalho de Brecht. Uma abordagem a partir do estudo de quatro personagens femininasA LenteA Guerra de YuanO Rato Pensador (todos pela Editora Cia. Fagulhawww.ciafagulha.com.br) e de vários artigos publicados em revistas especializadas. 
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Mito da caverna. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Mito da caverna. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho


Mídia golpista pariu o fascismo no Brasil.
Mas há pais e mães múltiplos dessa anomalia no país.


Mito da caverna. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho

Imaginemos uma caverna separada do mundo externo por um alto muro. Entre o muro e o chão da caverna há uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior, deixando a caverna na obscuridade quase completa. Desde o nascimento, geração após geração, seres humanos são enviados ali pelo PIG.
As pessoas ficam de costas para a entrada, acorrentadas nas grades de vídeos, de jornais e de revistas que contam sempre a mesma ladainha. São adestradas a visitar templos sagrados de consumo impostos pelo PIG, não movendo a cabeça para lugar distinto do ordenado pelas oligarquias piguianas. Não tendo consciência de si e dos demais, asseveram existir apenas a ficção elaborada por grandes corporações que os mantêm presos a uma mentalidade mesquinha e predatória, caracterizada por o homem ser o lobo do homem e o trabalho ser objeto de intensa exploração e destituído de sentido para os produtores que, alienados, não se reconhecem enquanto autores do que elaboraram. Portanto a riqueza é apropriada pelos proprietários dos meios de produção, os quais encomendam lenitivos e outros narcóticos para manter os encarcerados entorpecidos por um entretenimento imbecilizante.
Do lado de fora, há diversas frentes procurando romper o cerco midiático a que estão sujeitos os sequestrados da realidade pelo PIG. Este utiliza servomecanismos múltiplos para conservar a catatonia dos habitantes da caverna.
Os prisioneiros julgam que o discurso piguiano e seus simulacros são a própria realidade, de maneira que os adversários do sistema da caverna são denominados de terroristas, esquerdistas, comunistas, blogueiros sujos etc.
Os alienados imaginam que as vozes dos vídeos, das revistas e dos jornais são suas próprias falas, de tal forma que atribuem a si mesmos as ideias diuturnamente impostas pelos canais de distorção da realidade monopolizados pelo PIG.
Em função do hábito, tomam a ficção piguiana por realidade. Essa confusão, porém, não é causada pela natureza dos prisioneiros e sim pelas condições adversas em que se encontram.
A batalha dos inimigos da mídia totalitária é resgatar os que ainda não têm condições de se desvencilhar das amarras e condicionamentos mentais de aprisionados.
Antigos cativos fazem parte das brigadas antiPIG. Eles estavam inconformados com a condição miserável em que se achavam e decidiram abandoná-la. Fabricaram instrumentos para quebrar seus grilhões. Inicialmente, tiveram inúmeras dificuldades, mas enfrentaram os obstáculos de um caminho íngreme e difícil, e saíram da caverna.
Comparando o que viam/ouviam/liam nas sessões piguianas de lavagem cerebral e a extrema diferença descoberta no exterior daquele mundinho medíocre, sentiram-se divididos entre a incredulidade e o deslumbramento. Agora, precisariam decidir onde se localiza a realidade: no que observam atualmente ou nas sombras piguianas em que sempre viveram. Deslumbramento (ferido pela luz) porque seus olhos não conseguem ver com nitidez as coisas sob outro prisma. Confusos, o primeiro impulso deles é retornar à caverna, atraídos pela alienação, que lhes parece mais acolhedora. Aprendem a ver e esse aprendizado é doloroso, pois se dão conta da necessidade de deixar de lado ideias e costumes familiares e conhecidos.
Entretanto, em virtude dos percalços e riscos que assumiram, os ex-prisioneiros permanecem no exterior e começam a investigar o mundo a partir de outras perspectivas. Aos poucos, habituam-se ao antes desconhecido e passam a ser felizes por ver as coisas como realmente são, ou seja, completamente distintas dos enredos piguianos.
Estimulados, não querem jamais voltar à condição anterior e lutarão com todas as suas forças para nunca regressarem a ela.
Todavia não podem evitar lastimar a condição dos que continuam cativos e, por fim, tomam a difícil decisão de regressar ao subterrâneo sombrio para contar aos restantes o que viram e convencê-los a se libertarem também.
Que acontece nesse retorno? Os prisioneiros zombam deles, não acreditando em suas palavras e, se não conseguem silenciá-los com suas caçoadas, tentam fazê-lo internando-os nas antigas poltronas nas quais serão obrigados a voltar a assistir a programação piguiana exaustivamente para deixarem de ser chamados de terroristas, sujos e subversivos.
Apesar do uso saturado da censura e controle, os brigadistas, infensos ao palavrório de maré baixa, continuam a emitir suas visões que destoam do estabelecido pelos agentes piguianos. Alguns ouvem, e contra a vontade dos demais, também decidem sair da caverna rumo à realidade. Conhecem outras pessoas, visitam blogs sujos, leem filósofos, sociólogos etc. e passam a engrossar as fileiras da contestação às redes piguianas.
Atualmente, os mecanismos de domínio piguianos se encontram sob ataques constantes, erodindo as fortificações antes tidas como inexpugnáveis.




The Cave: An Adaptation of Plato's Allegory in Clay.

A caverna: uma adaptação em argila da alegoria de Platão.


Animação com argila representa a Alegoria da Caverna de Platão, contida em A República, no Livro VII.
A animação “Plato’s Allegory of the Cave” (A Alegoria da Caverna, de Platão) tem a direção de Michael Ramsey, bonecos de argila criados pelo artista Jon Grigsby e mais de 4.000 fotos iluminadas por luz de vela.


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a luta antifascista deve ser constante.





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Lillian Hellman: marco do teatro estadunidense moderno no século XX. Por Maria Sílvia Betti


Lillian Hellman: marco do teatro estadunidense moderno no século XX. Por Maria Sílvia Betti

Publicado anteriormente em: Betti, Maria Sílvia. “Lillian Hellman: marco do teatro estadunidense moderno no século XX.” In HELLMAN, Lilian. As pequenas raposas. Apresentação de Maria Sílvia Betti. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.




Lillian Hellman: marco do teatro estadunidense moderno no século XX. Por Maria Sílvia Betti



VIDA E PENSAMENTO

Lillian Hellman é um dos nomes centrais da dramaturgia das décadas de 1930 a 1950, e uma das mais importantes escritoras de sua geração no contexto estadunidense e internacional. Hellman vivenciou intensamente e com grande coerência de pensamento e ação as três facetas essenciais de sua própria condição: a de mulher numa época predominantemente machista, judia num momento em que o antissemitismo ganhava força e adepta inequívoca do pensamento político de esquerda numa sociedade como a estadunidense e numa era de “caça às bruxas” e perseguições em todos os níveis.
Calúnia, de 1934, e As pequenas raposas, de 1939, traduções de The Children’s Hour e de The Little Foxes, foram as duas obras que a transformaram num dos nomes centrais do teatro de seu país do século XX. Muito mais tarde, em 1977, Pentimento, um de seus livros de memórias, viria trazer-lhe novo influxo de celebridade na glamourizada adaptação cinematográfica intitulada Julia e estrelada por Jane Fonda e Vanessa Redgrave.
Contemporânea de grandes renovadores da dramaturgia nos Estados Unidos, como Eugene O’Neill, Tennessee Williams e Arthur Miller, Lillian Hellman preferiu, ao contrário deles, manter-se fiel à estrutura dramática padrão, evitando arriscar-se em rupturas com a forma da chamada “peça bem feita”. Por isso suas obras caracterizam-se, do ponto de vista formal, por uma construção bastante próxima dos preceitos clássicos do drama: uma introdução expositiva da ação dramática, seu desenvolvimento e ascensão rumo a um clímax tensional e sua resolução final por meio de um desfecho.
Como escritora, Hellman transitou por diferentes gêneros. Sua produção é composta por oito peças teatrais, quatro adaptações e sete roteiros cinematográficos, quatro volumes de escritos autobiográficos e um livro de receitas.
Como intelectual, desfrutou sempre, ao longo de sua carreira, da amizade de artistas de diferentes setores e de diferentes gerações, como Dorothy Parker, Leonard Bernstein e Mike Nichols, além de ter sido casada com o famoso escritor de romances policiais, roteirista e ativista político Dashiell Hammett.
Tendo vivido numa época de grandes e drásticas transformações históricas, Hellman enfrentou um duplo desafio ao longo das diversas fases de seu trabalho: enfrentar o machismo dominante nos meios intelectuais em sua época e manter, como intelectual, a coerência de seu pensamento crítico sem fazer concessões ao reacionarismo dominante nos Estados Unidos. Cumprindo seu papel de cidadã, posicionou-se com firmeza ao ser inquirida pelo terrível Comitê de Atividades Antiamericanas presidido pelo senador republicano Joseph McCarthy, em 1951.
A obra dramatúrgica de Lillian Hellman, ainda que não volumosa, desenvolveu-se dentro do período em que o teatro estadunidense se constituiu como um dos mais importantes pontos de referência para a modernização da dramaturgia e da encenação no século XX.
Embora seus trabalhos não tenham relações diretas com os expedientes dessa modernização, Hellman foi contemporânea de manifestações de extraordinária força renovadora e significado político, como, por exemplo, o Federal Theatre Project (projeto nacional de cultura implantado pelo governo Roosevelt durante o New Deal), o grande movimento de grupos teatrais de esquerda dos anos 1930 e o trabalho dramatúrgico e teórico do pensador alemão Bertolt Brecht.
No decorrer da década de 1950, dentro da atmosfera política e cultural da Guerra Fria, Hellman testemunhou a ascensão do movimento beatnik, o surgimento do movimento hippie e as primeiras raízes da contracultura, que eclodiria com força na década seguinte. Nos anos 1960 tornou-se inequívoco o contraste que suas peças apresentavam com o experimentalismo radical dos grupos teatrais de vanguarda como o Living Theater e o Open Theater.
Parte em função disso e parte em função da própria concepção dramatúrgica praticada por Hellman, sua obra foi consideravelmente preterida, ainda que muitas vezes peças como Calúnia e As pequenas raposas tenham sido objetos de adaptações para a televisão nos Estados Unidos e em vários outros países.
Mesmo sem ter enveredado pelo campo das estruturas épicas e politizantes, o conteúdo político das peças de Hellman é inegável no que diz respeito aos temas: o foco crítico recai sobre as classes médias que lutam pela ascensão social, sobre o individualismo competitivo que as respalda e sobre a forma como as relações sociais e os laços afetivos se deixam moldar, dentro e fora do mundo familiar, pelos jogos de poder e de interesse.

DRAMATURGIA
O estilo de criação de Hellman é minucioso e bem elaborado em todos os seus detalhes: nada fica pendente ou sem função, cada pormenor da caracterização das personagens ou da concepção do contexto sociocultural representado revela um criterioso levantamento de informações factuais, históricas e estatísticas que dá consistência e credibilidade ao trabalho final.
Ao contrário de Clifford Odets, o grande expoente da dramaturgia de esquerda dos anos 1930 nos Estados Unidos, Hellman nunca teve o respaldo de um coletivo de atores e diretores, como foi o caso daquele autor e da filosofia colaborativa de trabalho que estabeleceu com o Group Theater, de Nova Iorque.
Introduzida no mundo da criação literária por seu marido, Dashiell Hammett, Hellman identificou-se desde o início de sua carreira com o pensamento da esquerda antifascista e participou de várias importantes organizações culturais diretamente ligadas ao Partido Comunista nos Estados Unidos.
Seu vigoroso empenho na luta contra o fascismo foi alimentado, paralelamente, por sua grande sensibilidade crítica e pela experiência política extraída da viagem que fez a Moscou, passando pela Espanha de Franco e pela Berlim de Hitler em plena época de expansão do nazismo, em meados dos anos 1930.
As peças de Hellman fazem uso razoavelmente frequente de elementos melodramáticos como forma de intensificar a ligação emocional do espectador/leitor ao assunto tratado. São comuns, também, recursos de caráter figurativo, destinados a representar os embates entre justiça e injustiça ou entre socialismo e fascismo, e o caráter ilusório do dinheiro e do poder econômico, potenciais agentes de corrupção e de crueldade social.
O trabalho de analista e roteirista cinematográfica, que levou Hellman a mudar-se para Hollywood, não afetou sua veia criadora como dramaturga, como prova sua produção dos anos 1940. Mas a necessidade de atender ao que lhe pedia o diretor Harold Clurman e adaptar sua técnica de criação às novas plateias colocou-a numa posição diversa da ocupada por outros escritores de esquerda como o já citado Clifford Odets, cuja dramaturgia tinha um caráter de inequívoca conclamação à militância e à construção de uma consciência política de esquerda.
Pode-se dizer que Hellman contribuiu significativamente para a renovação do drama social estadunidense sem nunca ter sido, efetivamente, uma revolucionária no sentido artístico da palavra. Há quem julgue, como o crítico R. C. Reynolds em seu livro Stage left: the development of the American Social on the Thirties [A esquerda do palco: o desenvolvimento do social americano nos anos 1930], que Hellman evitou desenvolver um trabalho de natureza política mais declarada e radical a fim de não prejudicar seu sucesso profissional como autora.
Todas as suas peças estrearam na Broadway, e a Broadway foi sempre sinônimo de um teatro altamente profissionalizado, com investimentos elevados em produção e a necessidade implícita de sucesso entre as plateias pagantes.
O fato é que, dentro dessa estrutura de produção e da opção formal que fez pelo drama padrão, Hellman construiu uma obra de inequívoco sentido político, representando com grande vigor dramático questões sociais de grande relevância: Calúnia trata do tema da disseminação da mentira dentro de mecanismos socialmente estabelecidos. Days to Come [Dias por vir], de 1936, trata de questões sindicais e da ética política num contexto de lutas trabalhistas e de fura-greves, Watch on the Rhine, [Vigília sobre o Reno], de 1941 e The Searching Wind [O vento penetrante], de 1944, colocam em foco o fascismo no contexto da Segunda Grande Guerra e a omissão da classe média estadunidense diante da sua expansão e Toys in the Attic [Brinquedos no sótão] trata da erosão das relações familiares sob o impacto da usurpação do patrimônio compartilhado e da cobiça material.
Representar tais assuntos e dar a eles consistência cênica e qualidade dramatúrgica não constituía uma opção simples ou cômoda do ponto de vista da execução, e Hellman soube tratá-los de forma artisticamente bem realizada e politicamente comprometida com uma visão crítica da sociedade estadunidense e de seus valores estabelecidos.

AS PEQUENAS RAPOSAS

“Por exemplo; nós as raposas, as pequenas raposas que estragam as vinhas; pois nossas vinhas têm tenras uvas.’ A citação bíblica da qual foi extraído o título serve de metáfora para a imagem central da peça de Lillian Hellman. Os procedimentos associados ao jogo capitalista de disputa pela riqueza e a denúncia das distorções da sociedade estadunidense fazem do texto um clássico da moderna dramaturgia do século XX.
O contexto socioeconômico dos Estados Unidos no início do século XX caracteriza-se pelo rápido crescimento urbano e industrial, pelo grande empreendedorismo generalizado e pela confiança inabalável no progresso material.
O país vinha crescendo num ritmo sem precedentes e se tornara atraente tanto para os investidores estrangeiros como para as massas de imigrantes que afluíam em busca de oportunidades. Os grandes impérios coloniais europeus declinavam enquanto os Estados Unidos emergiam como a grande potência econômica internacional. Mais do que isso, o país passava a ser visto como modelo de nação moderna onde a livre iniciativa e a competição eram alardeadas como caminhos de busca supostamente igualitária pela felicidade, associada à ascensão social e ao sucesso econômico.
As expectativas de enriquecimento crescente da família Hubbard — cujos irmãos Ben, Oscar e Regina são convidados a participar de empreendimentos no setor de algodão — são representativas da mentalidade estadunidense que, na virada do século XIX para o XX, vislumbrava um futuro de prosperidade com o avanço da industrialização e sua prevalência sobre o mundo agrário e patriarcal. Os Hubbard representam, em seu pensamento e conduta, a nova burguesia estadunidense que ganhara terreno, política e economicamente, a partir do final da Guerra Civil, em 1865. Para Lillian Hellman essa nova classe que emergira no período incorporava de forma extrema os expedientes predatórios da mentalidade capitalista, mostrando-se assim tão daninhos quanto as pequenas raposas, que na imagem bíblica destroem as vinhas.
  O microcosmo familiar dos Hubbard encontra-se impregnado dos valores desse sistema econômico, e serve de imagem típica das relações humanas que se reproduzem em seu interior, apoiadas na rapina material e moral. Apesar da concepção melodramática de algumas cenas, esta é uma peça contundente e comprometida com a crítica ao modo como os valores do enriquecimento a qualquer preço são absorvidos e legitimados no âmbito da família, e como reproduzem, no microcosmo das relações parentais, os grandes mecanismos de manipulação e de conquista do poder econômico.


CRONOLOGIA

1905 Lillian Florence Hellman nasce em New Orleans, em 20 de junho, filha de um comerciante de calçados.

1922 Inicia seus estudos na Universidade de Nova Iorque.

1924 Transfere-se para a Universidade de Columbia.

1925 Abandona o curso e começa carreira de crítica literária no jornal New York Herald Tribune. Casa-se com o dramaturgo e assessor de imprensa Arthur Kober.

1930 Torna-se roteirista para a empresa cinematográfica Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) em Hollywood. Conhece e apaixona-se pelo escritor de histórias policiais Dashiel Hammet.

1932 Divorcia-se de Arthur Kober. Passa a viver com Dashiell Hammett.

1934 Estreia de sua peça Calúnia [The Children’s Hour] em 29 de novembro no Maxine Elliott’s Theatre na Broadway em Nova Iorque, cumprindo uma temporada de 891 apresentações.

1936 Estreia de sua peça Days to Come [Dias por vir] no Vanderbilt Theatre, na Broadway. A peça não é bem recebida e cumpre apenas sete apresentações.

1939 Estreia de sua peça As pequenas raposas no National Theatre na Broadway. A peça cumpre 410 apresentações.

1941 Estreia de sua peça Watch on the Rhine [Vigília sobre o Reno] no Martin Beck Theatre, na Broadway. A peça recebe o prêmio do New York Drama Critics Circle Award.

1942 Hellman é indicada para o Oscar pelo roteiro cinematográfico de As pequenas raposas, de 1941.

1944 Hellman é indicada para o Oscar pelo roteiro de The North Star, de 1943. Sua peça The Searching Wind estreia no Fulton Theatre, na Broadway.

1946 A peça Another part of the Forest [Uma outra parte da floresta] estreia no Fulton Theatre na Broadway sob a direção da própria Hellman.

1949 Adaptação de Montserrat, de Emmanuel Robles, estreia no Fulton Theatre na Broadway sob a direção de Lillian Hellman. A versão musical de As pequenas raposas, intitulada Regina, estreia no 46th Street Theatre, na Broadway.

1951 Sua peça The Autumn Garden [O jardim de outono] estreia no Coronet Theatre, na Broadway.

1952 Hellman é intimada a depor diante do Comitê de Atividades Antiamericanas do Senado. Diante de pressão para que revelasse nomes de artistas do meio teatral ligados a organizações comunistas, ela recusa-se dizendo: “Não vou retalhar minha consciência para me adequar à moda da estação.”

1956 O musical Candide, adaptação da obra de Voltaire com libretto de Hellman, estreia no Martin Beck Theatre na Broadway, e recebe o Tony Award na categoria de melhor musical.

1960 Sua peça Toys in the Attic [Brinquedos no sótão] estreia no Hudson Theatre na Broadway, e recebe o Tony Award na categoria de melhor peça, cumprindo
uma temporada de 556 apresentações.

1961 Dashiell Hammett morre, vítima de câncer no pulmão.

1963 Sua peça My Mother, My Father and Me [Minha mãe, meu pai e eu], baseada em romance de Burt Blechman, estreia no Plymouth Theatre na Broadway. A peça não é bem recebida e cumpre apenas 17 apresentações.

1964 Hellman recebe a medalha de ouro na categoria de Dramaturgia pelo Instituto Nacional de Artes e Letras.

1969 Hellman lança seu primeiro livro de memórias, Uma mulher inacabada, e recebe o National Book Award na categoria de autobiografia, mas é atacada pela crítica, que a acusa de ter fantasiado muitos dos fatos relatados e de ter utilizado outras fontes que não suas próprias reminiscências.

1973 Hellman lança seu segundo volume autobiográfico, Pentimento.

1976 Hellman lança seu terceiro volume autobiográfico, Caça às bruxas.

1984 Morre de um ataque cardíaco em Martha’s Vineyard.






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Conheça também:

de Maria Sílvia Betti (organizadora da coleção Oduvaldo Vianna Filho pela Editora Temporal)

Dramaturgia Comparada Estados Unidos / Brasil: Três estudos
Autora: Maria Sílvia Betti
Editora: Cia. Fagulha
ISBN 13:       978-85-68844-03-8
Páginas:       360







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Mercenários. Por Agenor Bevilacqua Sobrinho


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A corporação certa, no lugar certo e na hora certa para fazer a coisa errada

Todos os ramos de atividade humana são explorados por mercenários.
Na área de saúde, temos planos virais e bacterianos. O número de associados cresce em velocidade geométrica e os serviços continuam no ritmo inicial, sem se incomodar com as agruras dos incautos ingressantes e dos já acostumados aos péssimos atendimentos.
No campo do entretenimento, o terror é distribuído em todos os gêneros. Comédia, romance, drama. Não importa. Futilidades e abjeções em overdoses desferem com sucesso golpes simultâneos e sucessivos em cérebros pouco afeitos ao discernimento.
No setor da publicidade e propaganda, as recorrências são tão grandes que seria tedioso mencionar a quantidade amazônica de perfídias, aliciamento para o consumo desnecessário e antiecológico, apelos sexistas e vexatórias construções midiáticas cientificamente arquitetadas para lançar a rede e pescar os mais variados otários disponíveis para obter nulidades fundamentais.
Na arena da política, a concentração desse perfil é acintosa. O deputado/senador deve votar a respeito de um projeto e contabiliza antecipadamente os dividendos relativos à sua contribuição com o desenvolvimento nacional. Para aprovar, tantos milhões; para rejeitar, outros milhões; para ficar em cima do muro, o céu é o limite.
No espaço da educação, os prédios se multiplicam. A quantidade de edificações sendo ampliadas e erguidas é impressionante. Com sorriso largo, os acionistas mordem as orelhas ao monitorar os lucros obtidos com o artigo mercantil. Humanização, valores? Caduquices, talvez acessíveis em visitas arqueológicas. Qualidade? Para quê? Irrelevância estatística, não soma taxas de retorno consistentes.
Mercenários não são confiáveis, pois preferem os próprios interesses aos do país, como ensina Maquiavel. “Querem muito ser teus soldados, enquanto tu não estás em guerra, mas, ao chegar à guerra, ou fogem ou se demitem.” No mais das vezes, se aliam aos seus inimigos.


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