Lélia Abramo [1911-2004] e Dulce Muniz [1947]: questões para o presente

 Lélia Abramo [1911-2004] e Dulce Muniz [1947]: questões para o presente.

Maria Silvia Betti. USP - FFLCH [1]




Embora pertençam a gerações diferentes, os percursos de vida, trabalho e pensamento de Lélia Abramo e de Dulce Muniz convergem em inúmeros aspectos, pois ligam-se ao teatro (e dentro dele à dramaturgia) como campos inseparáveis das lutas sociais e políticas contra a ditadura e em prol das liberdades democráticas.

Lélia e Dulce compartilham

A convicção política de base trotskista.

A militância política e artística contra o autoritarismo, a tortura, a exploração do trabalho e a desigualdade econômica.

A participação em prol do reflorescimento do sindicato da categoria dos artistas e técnicos em diversões (o SATED), na década de 1970, num momento de emergência das lutas sindicais no ABC.

A atuação, por meio da dramaturgia e do teatro, dentro de importantes campos de luta pela transformação da sociedade.

Trabalho artístico e político de Lélia e de Dulce: elos com as lutas do teatro e da cultura

      Lélia: Teatro dos imigrantes de origem itálica I Guitti - Teatro Brasileiro de Comédia (TBC)- Teatro de Arena de São Paulo (1958-1961) - Cinema Novo - Televisão - Lutas sindicais dentro da categoria dos artistas.

      Dulce: Teatro de Arena (já sob o AI-5)- Teatro Jornal - Movimento Arte contra a Barbárie Luta pela Lei Municipal de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo – Teatro Studio Heleny Guariba: espaço de memória das lutas de resistência – Dramaturgia feminina (Concurso Feminina Dramaturgia).

Lélia: raízes de seu trabalho e formação

Família de lutadores. Trotskistas, como seu irmão mais velho, Fúlvio; anarquistas, como seu avô materno Bortolo; humanistas, como seu pai; artistas, como seu irmão Lívio.

Década de 1930: participa da Liga Comunista Internacionalista, liderada por Mário Pedrosa. Participa da direção do Sindicato dos Comerciários, também na década de 1930.

Passa os anos da guerra na Itália.

1950: entra para o grupo teatral Muse Italiche.

1958: ingressa no grupo teatral I Guitti, dirigido por seu irmão Athos Abramo.

 

Lélia: Arena e TBC

Início dito “tardio”, aos 47 anos, em “Eles não usam black-tie”, de Gianfrancesco Guarnieri, no Teatro de Arena de São Paulo, em 1958.

Participação marcante em outras montagens ligadas à modernização nacionalista da dramaturgia no Brasil:

Teatro de Arena, 1961: “Gente como a Gente”, de Roberto Freire, e “Pintado de alegre”, de Flávio Migliaccio.

Teatro Brasileiro de Comédia (TBC): “Os ossos do Barão” (1963) e “Vereda da Salvação” (1964)

Lélia: repertório de papéis em peças de autores consagrados

Clássicos (Aristófanes, com “Lisístrata”, em 1967, Ésquilo, com “Agamênon”, em 1968, e Shakespeare, com “Romeu e Julieta” e “Ricardo III”, respectivamente em 1969 e 1975).

Dramaturgos ligados a diferentes perspectivas de modernização temática e interpretativa (como Tennessee Williams, com “À margem da vida”, em 1958, Ionesco, com “Rinocerontes” e Arnold Wesker com “Raízes”, ambos em 1961, Garcia Lorca, com “Yerma”, em 1962, Ibsen, com “Os Espectros”, em 1965, e Beckett, com “Esperando Godot”, em 1977).

Lélia: atuações importantes para o aporte do teatro de Brecht no Brasil

1960: “Mãe Coragem e seus filhos” (Sociedade Artística Novo Teatro, dir. Alberto d’Aversa)

1962: “As visões de Simone Marchard” (Cia Nydia Licia, dir. José Felipe)

1985: “A mãe” (dir. João das Neves)

Lélia

Aos 47 anos, Lélia tornou-se atriz profissional. Estreou, em 1958, na peça Eles não usam black-tie. Ganhou todos os prêmios daquele ano. Exatos 20 anos depois, assumiu a presidência do Sindicato dos Artistas de São Paulo.”

(Fonte: Rememória. Entrevistas sobre o Brasil do século XX. Org. Ricardo Azevedo e Flammarion Maués. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, p. 65.)

“Ao longo de quatro anos, cumpriu um papel importante junto às greves dos metalúrgicos do ABC, no nascimento do PT e na organização sindical e política dos artistas. Essa atuação afetou sua carreira profissional; as emissoras de TV, em particular, não mais a contrataram. Durante o governo Luiza Erundina, Lélia participou da equipe da Secretaria de Cultura e deu aulas a um grupo de teatro comunitário na periferia. Aos 86 anos, concluiu em 1997 seu livro de memórias.”

(Fonte: loc. cit)

 

Lélia no teatro: trabalho com diretores

Diretores consagrados: Maurice Vaneau, Alberto d’Aversa e Cacilda Becker.

Diretores ligados à renovação dramatúrgica e cênica no contexto brasileiro: Augusto Boal, José Renato, Antunes Filho e Antonio Abujamra.

Lélia no cinema: atuações de destaque

“O caso dos irmãos Naves”, marco do Cinema Novo sob a direção de Luis Sérgio Person, em 1967.

“Joana Francesa”, coprodução franco-brasileira com roteiro escrito e dirigido por Cacá Diegues, em 1973.

“Maldita Coincidência”, de 1974, filme de estreia do diretor Sérgio Bianchi.

“Eles não usam Black-tie”, de 1981, dir. Leon Hirszman

Na televisão

Lélia atuou em novelas e em trabalhos teledramatúrgicos, passando por praticamente todas as emissoras disponíveis na época no eixo São Paulo-Rio de Janeiro.

Sua militância política e sua atuação sindical custaram-lhe, em 1982, a demissão dos quadros da Rede Globo.

 

Política e cultura no trabalho de Lélia

Lélia integrou o grupo que formulou os subsídios para a plataforma cultural do PT em 1982, composto por Antonio Cândido, Bete Mendes, Denise del Vecchio, Maria Esmeralda, Maurício Segall e Roberto Schwarz).

 

Vida e Arte

Em 1997 é lançada sua autobiografia, Vida e Arte. Memórias de Lélia Abramo, publicação conjunta da Editora da Unicamp e da Editora Fundação Perseu Abramo.

Morre em 2004.

 

Dulce Muniz: formação sob a ditadura

Formação inicial: milita no Partido Operário Revolucionário Trotskista - PORT.

Em 1970 participa de oficinas de interpretação para atores iniciantes abertas no Teatro de Arena, conduzidas por Heleny Guariba e Cecília Boal.

Com a prisão de Heleny, e seu desaparecimento dentro dos órgãos de repressão, Dulce e os demais ingressantes desenvolvem o trabalho que resultaria no Teatro Jornal, importante frente de trabalho teatral de ativismo político-cultural que realizaria apresentações em diferentes espaços públicos da cidade de São Paulo e de sua periferia.

[Obs. Heleny Ferreira Telles Guariba, Militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi presa em 12 de julho de 1971. Seu corpo nunca foi encontrado. Seu nome consta da lista oficialmente reconhecida de desaparecidos políticos, no anexo I, da lei 9.140/95.]

Em 06 de junho de 2016 Dulce recebe, na Câmara Municipal de Vereadores de São Paulo, o título de Cidadã Paulistana.

Dulce: lutas

Participa da articulação e dos debates realizados dentro do Movimento Arte contra a Barbárie, do qual resultou a promulgação da Lei Municipal de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo, que estimula o trabalho de pesquisa artística e cultural de coletivos de teatro em todas as regiões da cidade de São Paulo.

Participa do Movimento de Teatro de Grupos de São Paulo com o Núcleo do 184.

 

Dulce e o Teatro Studio Heleny Guariba

      Em abril de 2013 dá ao seu pequeno teatro, na Praça Roosevelt 184, em São Paulo, o nome de Teatro Studio Heleny Guariba.

      Nesse teatro sedia debates dentro do Movimento Arte contra a Barbárie, da Cooperativa Paulista de Teatro, assim como palestras, ciclos de filmes (“Sábados Resistentes”), leituras dramáticas e apresentações teatrais de textos da dramaturgia brasileira e latino-americana dos anos de resistência.

Dulce como dramaturga: trilogia de mulheres revolucionárias

Escreve a trilogia dramatúrgica ainda inédita em termos de publicação intitulada “A Mulher na Resistência”, composta por peças dedicadas à representação da luta e do pensamento de mulheres militantes do socialismo revolucionário:

Iara, camarada e amante”, sobre Iara Iavelberg (militante do Movimento Revolucionário 08 de Outubro e companheira do Capitão Carlos Lamarca, da Aliança Libertadora Nacional),

Heleny, Heleny, Doce Colibri”, sobre a professora e diretora teatral Heleny Guariba

Rosa Vermelha. Concerto Mínimo para a Vida, Obra e Morte de Rosa Luxemburgo, ativista revolucionária e teórica do socialismo

O contexto atual

      Dentro de um histórico de cortes e boicotes, a 34ª Edição do Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo é suspensa por determinação judicial

      Desmonte das políticas públicas para a cultura continuam acelerados

      Estreitamento de laços entre grupos de teatro e a universidade: absorção de expedientes acadêmicos de trabalho formativo.

      Expansão das práticas performativas em detrimento da pesquisa interpretativa e teórico-crítica voltada à dramaturgia.

      Dramaturgia: pouco presente na formação de atores e atrizes e também nos conteúdos de periódicos acadêmicos das áreas de Artes Cênicas.

      Desaparecimento de edições de peças teatrais em circulação.

      Crescentes dificuldades de subsistência por parte de editoras e de livrarias.

      Enorme dificuldade interpretativa dos atores e atrizes em formação em relação à dramaturgia propriamente dita. 

      Foco de atenção na dramaturgia tem sobrevivido, em grande parte, dentro da área de roteiros (criação).

Desafios:

      Precarização e gradual privatização das universidades públicas.

      Desmonte das agências de subsídio à pesquisa.

      Crescentes cobranças produtivistas e burocratizantes nas áreas de pesquisa das Universidades.

      Expansão das modalidades não presenciais de ensino.

      Adoção, como parâmetro de excelência, do modelo estrangeiro (especialmente estadunidense) de universidade.

      Apagamento da consciência histórica em relação às lutas travadas pelo teatro em momentos anteriores.

Lélia e Dulce

      Ambas trabalharam pelo teatro como campo de expressão artística de luta e compartilhamento de reflexão crítica sobre a realidade.

      Dentro desse trabalho, a dramaturgia teve papel importante por meio do histórico de criação de autores como Oduvaldo Vianna Filho, Gianfrancesco Guarnieri, Jorge Andrade, Chico de Assis, João das Neves, Dias Gomes, Paulo Pontes, Plínio Marcos, Consuelo de Castro, Leilah Assunção, Carlos Alberto Soffredini, Carlos Queiroz Telles, Lauro César Muniz, Timochenko Wehbi, José Vicente, Renata Pallotini, e muitos e muitos outros.

 

Questões

      A dramaturgia que herdamos desses autores tem sido frequentemente encarada, em teses, dissertações e obras histórico-críticas, como mero recuo em relação à criada dentro do teatro político e militante dos anos pré-golpe de 64. Subscrevemos esse diagnóstico?

      Essa dramaturgia nos inspira para algum aprendizado ou reflexão para além do atendimento ao produtivismo acadêmico na Universidade e à configuração de projetos para editais no âmbito do teatro da cidade de São Paulo?

 

Trecho extraído do prefácio de Antonio Cândido

O nosso mundo é tão cheio de quebras, capitulações, deserções, omissões e tudo o mais, que conforta ler a narrativa de uma vida como a de Lélia Abramo, que nunca vergou a espinha, nunca sacrificou a consciência à conveniência e desde muito jovem se opôs à injustiça da sociedade. Que sempre rejeitou as vias sinuosas e preferiu perder empregos, arriscar a segurança, sofrer discriminações para poder dizer a verdade e agir de acordo com os seus pontos de vista. Por isso, além de um belo texto escrito com calor e franqueza, este é também lição e exemplo. É muito bom saber que perto de nós existem pessoas dessa qualidade intelectual, ética e artística.

 

Bibliografia

 

Rememória. Entrevistas sobre o Brasil do século XX. Org. Ricardo Azevedo e Flammarion Maués. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo

Reinaldo Cardenuto. O cinema político de Leon Hirszman (1976-1981): engajamento e resistência durante o regime militar brasileiro. Tese de doutorado, ECA-USP, 2014. p. 353 p. 155, 238, 310, 314, 333, 422.

Rafaela Lunardi. Preparando a tinta, enfeitando a praça: o papel da MPB na “abertura política” brasileira (1977-1984). FFLCH, História Social, Marcos Napolitano. p. 304.

Uma chama revolucionária in Mário Pedrosa e o Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, p. 11, 17, 19-22.

Gelsom Rozentino de Almeida. História de uma década quase perdida: PT, CUT, crise e democracia no Brasil: 1979-1989. Editora Garamond Ltda. Rua da Estrela, 79 - 3º andar - Rio Comprido. Rio de Janeiro - Brasil - 20.251-021 Tel.: (21) 2504-9211 editora@garamond.com.br. p. 201.

Hamlet e o filho do padeiro: Memórias imaginadas

 Hamlet and the Baker's Son: My Life in Theatre and Politics p. 25.

Antunes Filho e a dimensão utópica - Page 116

Lembranças incompletas - Page 233. Edgar rodrigues, 2007.

Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da tv, p. 206, 227, 421

Muitos caminhos, uma estrela: memórias de militantes do PT, Volume 1 Editora Fundação Perseu Abramo, 2008 - Brazil - 447 pages

A contribuição italiana ao teatro brasileiro, 1895-1964


[1] Nota da autora: 

Este material ilustrou minha apresentação no encontro de Dramaturgia e Teatro da ANPOLL em Curitiba em 2019.


www.ciafagulha.com.br



Render-se ou respirar e resistir. Surrendering or to breathe and resist. Danielle do Nascimento Rezera & Agenor Bevilacqua Sobrinho

 

Render-se ou respirar e resistir

Surrendering or to breathe and resist

Danielle do Nascimento Rezera & Agenor Bevilacqua Sobrinho

 

Thomas Project n. 4 (2/2020)

LIVING THE CATASTROPHE OF BREATHING, BETWEEN UTOPIA AND DYSTOPIA / 

VIVERE LA CATASTROFE DEL RESPIRO, TRA UTOPIA E DISTOPIA /

VIVER A CATÁSTROFE DA RESPIRAÇÃO, ENTRE UTOPIA E DISTOPIA


Resumo: As sociabilidades e as utopias concretas precisam ser fomentadas pela compreensão das subjetividades articuladas com a consciência e a práxis. Diante do caos e distopias provocados pelas crises, temos duas opções: nos render, capitulando, ou respirar e resistir baseados na concepção crítica de novas possibilidades de convivência no mundo. Selecionamos, para a compreensão dessas possibilidades, pensadores que nos orientam a um percurso utópico ético e concreto e nos direcionam à efetiva luta. 

Palavras-chave: Utopia, Distopia, Luta social, Novas sociabilidades, Crise da vida humana, Pandemia da Covid-19.


Thomas Project. A border journal for utopian thoughts, n. 4, 2/2020, pp. 61-84

E-ISSN 2724-0568 - Itália

Danielle do Nascimento Rezera & Agenor Bevilacqua Sobrinho, Render-se ou respirar e resistir / Surrendering or to breathe and resist (pp. 61-84)

 

PDF: http://www.thomasproject.net/wp-content/uploads/2021/02/Tp4_4_Danielle-do-Nascimento-Rezera_Agenor-Bevilacqua-Sobrinho_Render-se-ou-respirar-e-resistir-1.pdf



A educação de crianças e jovens durante a pandemia da covid-19. “Tem alguém aí, ou vamos apenas cumprir tarefas?” Por Danielle do Nascimento Rezera e Raquel Gomes D'Alexandre

 A educação de crianças e jovens durante a pandemia da covid-19.

“Tem alguém aí, ou vamos apenas cumprir tarefas?”

Por Danielle do Nascimento Rezera e Raquel Gomes D'Alexandre


 

Danielle do Nascimento Rezera - Universidade Federal de São Paulo- UNIFESP

Raquel Gomes D'Alexandre - Pontifícia Universidade Católica PUC- São Paulo

 

Resumo:

A chegada do vírus Covid-19 ao Brasil redirecionou o olhar nacional para a crise científica instituída após os primeiros anos de governo do atual presidente da república, Jair Messias Bolsonaro. Objetivando entender o descontrole pandêmico no país e os efeitos na educação, tecemos considerações importantes em que se estabeleceu como mote epistemológico a compreensão do negacionismo científico articulado a antipolítica fundamental à condução do processo de alijamento dos direitos humanos. Buscamos no processo o entendimento crítico das condicionantes da educação obrigatória e como estas práticas são utilizadas como sinônimo de uma reconfiguração sobre as atividades laborais e atuação de entes privados no setor, indicando processos de precarizações do trabalho docente e da qualidade no sistema educacional público.

 

Palavras-chave: Educação. Covid-19. Negacionismo. Antipolítica. Razão Neoliberal.

 

 

SABER & EDUCAR 2 9 / 2 0 2 1: Escolas encerradas: Que educação em tempos de covid-19?

e-ISSN 1647-2144 – Portugal.

 

http://revista.esepf.pt/index.php/sabereducar/article/view/396/458

 

PDF: http://revista.esepf.pt/index.php/sabereducar/article/download/396/458


Enfrentando distopias contemporâneas: por uma disputa contra-hegemônica. Por Danielle do Nascimento Rezera, Agenor Bevilacqua Sobrinho

Enfrentando distopias contemporâneas: por uma disputa contra-hegemônica.

Por Danielle do Nascimento Rezera, Agenor Bevilacqua Sobrinho

 



Resumo

Tratamos neste artigo sobre as possiblidades de engajamento político-cultural no contexto pandêmico da Covid-19, as reais perspectivas de articulações sociais no âmbito de disputas por políticas que não atendam somente os aspectos da sobrevivência imediata, mas também que visem resoluções no campo democrático que nos levem a uma transformação qualitativa de nossa sociedade. Encontramo-nos diante do sentimento, descrito por Ernst Bloch, de uma “falta de algo” que nos incita a buscar outro modo de vida, os sentidos utópicos que nos levam à efetiva luta. Assim, aqui buscamos elucidar os preceitos das estruturas — tais como os lobbies do setor de tecnologia e seus conglomerados, os avanços antidemocráticos, instrumentalizados pela Lawfare, autoritarismo e anticonstitucionalismo do governo federal brasileiro, os ataques aos trabalhadores da educação e à própria disputa no setor educacional como campo de controle —, que podem nos encaminhar para o rompimento das distopias que cercam o cotidiano da classe trabalhadora, em especial a realidade educacional brasileira e seus desafios e gargalos que se exponenciam com a pandemia da Covid-19.

 

Revista PerCursos - v. 21, n. 47 (2020): Utopias e distopias na contemporaneidade

PerCursos, Florianópolis, v. 21, n. 47, p. 04-30, set./dez. 2020.

 

Enfrentando distopias contemporâneas: por uma disputa contra-hegemônica. Por Danielle do Nascimento Rezera, Agenor Bevilacqua Sobrinho

Leia o texto completo em PDF: https://www.revistas.udesc.br/index.php/percursos/article/view/18227/12672

  

Curso Dez vezes Vianinha – Sobre a proposta. Por Maria Sílvia Betti

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Sobre a proposta. Por Maria Sílvia Betti


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Esta série de encontros propõe-se a apresentar uma visão de conjunto da dramaturgia de Oduvaldo Vianna Filho tomando como balizas históricas os anos de 1965 (que se seguiu ao do golpe civil-militar) e 1974 (ano de sua prematura morte).

Vianna viveu e escreveu em um período de transformações socioeconômicas aceleradas e de grandes desafios para as classes trabalhadoras. Desde o início de seu trabalho como dramaturgo, no Teatro de Arena de São Paulo na segunda metade da década de 1950, o teatro foi tratado por ele como parte inseparável do aparelhamento de percepção, conhecimento e intervenção diante da realidade.

Em 1960, Vianna desligou-se do Arena disposto a transpor a barreira de classe que lá se apresentava quanto ao público, uma vez que operários e trabalhadores de baixa renda acabavam não tendo acesso aos espetáculos. Sua recém escrita peça “A mais valia vai acabar, seu Edgar”, encenada por Chico de Assis com um grupo amador num espaço aberto da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, acabou desencadeando a organização do Centro Popular de Cultura (o CPC), um grande e abrangente projeto voltado à horizontalização da produção cultural, com setores de trabalho voltados não só ao teatro, mas também ao cinema, à música popular, à poesia e à produção e circulação de estudos críticos que analisavam, de forma didática e investigativa, os grandes temas da pauta política do país. Em 1962 o CPC foi encampado pela União Nacional dos Estudantes, tornando-se seu braço cultural: o CPC da UNE.

Dentro do CPC Vianna passou a trabalhar febrilmente no setor de teatro, participando como escritor na criação de autos (esquetes satíricos e críticos de teatro de rua) sobre assuntos candentes das lutas do operariado, e, como ator, da apresentação deles em portas de fábrica, em favelas e em centrais sindicais. Paralelamente ele continuou a escrever peças longas voltadas às questões políticas cruciais do país (petróleo, reforma agrária e problemas inerentes à aliança de classes).

As condições materiais e humanas que caracterizaram esse período de trabalho cultural foram brutalmente abortadas com o golpe de 1964. A UNE foi posta na clandestinidade, e seu prédio, cercado por forças policiais, foi metralhado e destruído. Líderes sindicais, militantes de partidos de esquerda e ativistas do CPC e de outras organizações passaram a ser perseguidos, e muitos tiveram que deixar o país. Todos os principais elos entre o proletariado e os artistas e intelectuais de esquerda foram sumariamente cortados.

Diante dessas circunstâncias, Vianna e alguns companheiros criaram o grupo teatral Opinião, no Rio de Janeiro. Tratava-se da retomada forçada do teatro profissional e, ao mesmo tempo, da tentativa estratégica de realização de um trabalho que expressasse resistência e crítica, ainda que indiretamente, por meio de alusões, em espetáculos com uso de humor, música e metáforas sobre a situação do país.

Em 1968, com a instauração do Ato Institucional número 5, as já difíceis condições de trabalho sob o autoritarismo tornaram-se ainda piores, com a implantação da censura prévia aos meios de comunicação e com a crescente perseguição, prisão, tortura e desaparecimento de militantes de esquerda.

Com a recorrente proibição da maioria de suas peças pela censura, Vianna passou a ter que realizar trabalhos para a televisão, campo em que teve acolhida de público e reconhecimento pela crítica tanto com os textos teledramatúrgicos escritos para o programa “Caso Especial”, da TV Globo, como, principalmente, com os roteiros que criou em conjunto com Armando Costa, amigo e companheiro do CPC, para o seriado “A grande família” na mesma emissora.

Como dramaturgo e como pensador do teatro e da cultura, a perspectiva de Vianna foi sempre a de quem se apoiou na materialidade das condições objetivas da existência:

 

Partir daquilo que existe, que é visível, partir daquilo que compõe o homem no mundo em que vivemos.

 

Parece residir aí, nessa perspectiva materialista de entendimento, o principal desafio que se apresenta, nos tempos atuais, para o estudo e discussão de sua dramaturgia, particularmente a referente a esse período que se estendeu do golpe até sua prematura morte. A universidade atual tem sido um campo formador norteado predominantemente pela necessidade de gerar diagnósticos de análise apoiados em formulações teóricas mais do que no entendimento das condições históricas que se apresentam. Nada poderia ser mais adverso à discussão da dramaturgia de Vianna, e particularmente da dramaturgia produzida por ele nesse período, diante de circunstâncias de tão grande cerceamento.


Na consciência do povo, ao longo da História, de tal modo se imprimem os valores da submissão e da prostração, as condutas de aceitação e omissão, de tal modo a consciência popular é impregnada de ideias sobre a existência natural de “superiores” e “inferiores” que mesmo nos momentos em que o povo desperta, em que o povo toma para si sua força, estes valores permanecem, dificultando sua ação organizada, entravando a luta popular. [1]

 

Tornar mais agudos e complexos os recursos de expressão dramatúrgica e cênica foi sempre o empenho principal envidado por Vianna em tudo o que escreveu, e liga-se a seu esforço no sentido de tornar mais eficaz o mergulho crítico na realidade, por mais adversa que esta seja. Trata-se, portanto, de algo que se coloca a serviço da análise e da reflexão necessárias à luta e que se constitui em elemento inseparável dela. Em breves palavras, esta é a perspectiva a partir da qual foi proposta esta série de conversas.



[1] VIANNA FILHO, Oduvaldo. Uma entrevista sobre “Quatro Quadras de Terra”. In _______. Teatro de Oduvaldo Vianna Filho, v. 1. Organização de Yan Michalski. Rio de Janeiro: Ilha, 1981, p. 289.




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