Cinco maneiras de dizer a verdade. Bertolt Brecht


Cinco maneiras de dizer a verdade (1).

Bertolt Brecht


 Bertolt Brecht (1898-1956): poeta e dramaturgo alemão.




Cinco maneiras de dizer a verdade (1). Bertolt Brecht


Cinco dificuldades em escrever a verdade
Quem, nos dias de hoje, quiser lutar contra a mentira e a ignorância e escrever a verdade, vai ter de superar ao menos cinco dificuldades. Deve ter a coragem de escrever a verdade, embora ela se encontre escamoteada em toda parte; deve ter a inteligência de reconhecê-la, embora ela se mostre permanentemente disfarçada; deve entender da arte de manejá-la como arma; deve ter a capacidade de escolher em que mãos ela será eficiente; deve ter a astúcia de divulgá-la entre os escolhidos. As dificuldades são grandes para os escritores que vivem sob o fascismo, mas existem também para aqueles que fugiram ou se asilaram. E mesmo para aqueles que escrevem em países de liberdade burguesa.

1) A coragem de escrever a verdade
Entende-se que o escritor deva escrever a verdade no sentido em que não deve suprimi-la ou silenciá-la, nem escrever inverdades, nem curvar-se perante os detentores do poder, muito menos enganar os fracos. Naturalmente, é muito difícil não se curvar diante dos poderosos e é muito vantajoso enganar os fracos.
Desagradar os proprietários quer dizer renunciar à posse de bens. Renunciar ao pagamento de determinado trabalho significa, em certas circunstâncias, renunciar ao trabalho. Recusar a glória dos potentados quer dizer renunciar de vez à glória. Isso requer coragem.

Os tempos de máxima opressão são aqueles em que quase sempre se fala de causas grandiosas. Em tais épocas, é necessário ter coragem para falar de coisas pequenas e mesquinhas, como a comida e a moradia dos que trabalham, no meio do palavreado homérico em que o espírito de sacrifício é agitado como estandarte glorioso.

Quando se derramam homenagens sobre os camponeses, é corajoso falar em máquinas agrícolas e forragem barata, que tornarão mais fácil seu tão louvado trabalho. Se todas as emissoras berram que o homem sem cultura e sem instrução tem mais valor que o instruído, então é corajoso perguntar: tem valor para quem?

Se falam de raças inferiores e superiores, então é corajoso perguntar se não é a fome, a ignorância e a guerra que provocam deformações graves.

Também é preciso ter coragem para falar a verdade sobre nós mesmos, sobre os vencidos. Muitos dos que estão sendo perseguidos perdem a capacidade de reconhecer seus erros. A perseguição parece-lhes a maior injustiça. Os perseguidores, porque perseguem, são os maus, e os perseguidos terminam caçados por causa de sua bondade. Mas essa bondade foi derrotada, impedida, vencida. Então era uma bondade fraca, uma bondade ruim, insustentável, desmerecedora de confiança. Porque não é admissível aceitar a fraqueza como parte intrínseca da bondade, assim como se constata a umidade na chuva. Dizer que os bons são vencidos não porque sejam bons, mas porque são fracos, isso requer coragem. Naturalmente, a verdade deve ser dita na luta contra a mentira e não cabe disfarçá-la em algo generalizado, sublime, sujeito a múltiplas interpretações. A inverdade é feita precisamente desse caráter genérico, sublime e ambíguo.

Se de alguém se diz que falou a verdade, é porque, antes, alguns ou muitos ou um só falaram algo diferente, uma mentira ou qualquer generalidade. Ele, porém, falou a verdade: algo prático, efetivo, inegável, aquilo de que se tratava. Não é preciso grande coragem para queixar-se da maldade do mundo, do triunfo da crueldade em geral, e acenar com o triunfo do espírito e uma pane do mundo onde isso ainda é permitido. Aí muitos se comportam como se fossem alvo para canhões. Na realidade, estão servindo apenas como alvo para binóculos de teatro. Proclamam suas exigências vagas perante uma plateia ingênua. Exigem uma justiça em geral pela qual jamais fizeram coisa alguma; uma liberdade genérica, para obter uma parte do que já há muito tempo foi partilhado com eles. Acham que verdade é o que soa bem. Se a verdade vem expressa em cifras, como algo árido, e consiste em fatos que demandaram esforço e estudo para serem discernidos, então essa verdade não lhes serve, não consegue entusiasmá-los. Têm apenas o comportamento exterior dos que dizem a verdade. Sua desgraça é ignorar a verdade.

2) A inteligência de reconhecer a verdade
Uma vez que é difícil escrever a verdade porque em toda parte ela vem sendo suprimida, muitos pensam ser questão de foro íntimo escrever a verdade ou não. Acreditam que somente é necessário coragem. Esquecem a segunda dificuldade: a do descobrimento da verdade. De forma alguma pode-se dizer que é fácil encontrá-la.

Para começar, já não é fácil decidir qual verdade merece ser dita. Assim, por exemplo, afunda-se agora, perante o mundo inteiro, na barbárie mais extrema, uma nação após a outra.

Ademais, todo o mundo sabe que a guerra interna, conduzida com uma ferocidade espantosa, qualquer dia poderá ser transformada em guerra externa, capaz de reduzir nosso continente a um monte de escombros.

Isso sem dúvida é uma verdade, mas naturalmente existem ainda outras verdades. Por exemplo, não deixa de ser verdade que as cadeiras têm assento ou que a chuva cai de cima para baixo. Muitos poetas escrevem verdades dessa espécie. Parecem pintores que pintam naturezas-mortas nas paredes de navios que estão naufragando.

Nossa primeira dificuldade não existe para eles e, mesmo assim, têm a consciência tranquila. Não perturbados pelos detentores do poder e igualmente insensíveis aos gritos dos violentados, dão suas pinceladas e fabricam seus quadros. O absurdo de sua conduta produz neles um “profundo pessimismo”, que vendem por bom preço, recompensa que de fato deveria ser dada a outros, e não a esses “mestres”. Mesmo assim, não é tão fácil reconhecer em suas verdades aquela simples verdade sobre as cadeiras ou a chuva, já que soam diferente, como se falassem verdades sobre assunto de real importância, porque a atividade artística consiste em realçar a importância de qualquer objeto. Somente analisando minuciosamente, depreende-se que eles apenas dizem: uma cadeira é uma cadeira, e ninguém pode se revoltar contra o fato de a chuva cair para baixo.
Essa gente é incapaz de achar as verdades que devem ser escritas. Outros se preocupam realmente com as tarefas mais em evidência. Não se amedrontam perante os donos do poder e não têm medo da pobreza. Mesmo assim não podem descobrir a verdade. Faltam-lhes conhecimentos. Estão cheios de velhos preconceitos, de famosos preconceitos já formulados de maneira bonita em tempos antigos. O mundo é demasiadamente complicado para eles. Não conhecem os fatos e não enxergam as conexões. Além da convicção, são necessários conhecimentos, que podem ser adquiridos, e métodos, passíveis de ser apreendidos. É necessário para todos os escritores, nessa época de grandes complicações e grandes alterações, conhecer a dialética materialista, a economia e a história. Esses conhecimentos podem ser adquiridos em livros e compêndios, quando existe vontade e diligência. Pode-se descobrir muitas verdades da maneira mais simples, partes de uma verdade ou de fatos que levam ao descobrimento da verdade. Para quem quer pesquisar, o método é bom, mas também é possível achá-la sem método, mesmo sem procurar. Todavia, se se consegue assim, de maneira casual, é quase impossível alcançar uma verdade capaz de oferecer aos homens um caminho para a ação. Gente que somente descreve pequenos fatos não é capaz de manejar as coisas deste mundo. Mas a verdade só tem esse objetivo, nenhum outro. Essa gente não é competente para escrever a verdade e atender a suas exigências. Se alguém está disposto a escrever a verdade e é capaz de reconhecê-la, restam três dificuldades.

3) A arte de tornar a verdade manejável como uma arma
A verdade deve ser dita por causa das consequências que dela resultam para a conduta. Exemplo de uma verdade, da qual não se deve tirar conclusões erradas, é a de que alguns países chegaram a um estado lastimável causado pela barbárie. De acordo com essa opinião, o fascismo é uma onda de barbárie que desabou como uma catástrofe da natureza sobre alguns países. Segundo essa opinião, o fascismo forma uma terceira força ao lado (e acima) do capitalismo e do socialismo; nem o movimento socialista nem o capitalismo poderiam existir sem o fascismo etc. Essa é, naturalmente, uma afirmação fascista, uma capitulação perante o fascismo. O fascismo é uma fase histórica em que o capitalismo entrou — nesse sentido, é uma coisa nova, porém ao mesmo tempo velha. O capitalismo existe nos países fascistas somente na forma de fascismo, e este pode ser então combatido em seu conteúdo capitalista, capitalismo da maneira mais desnuda, mais descarada, mais sufocadora, mais fraudulenta. Como poderá alguém dizer a verdade sobre o fascismo, ao qual é contrário, sem querer falar do capitalismo que o produz? Que aspecto prático poderá ter essa “verdade”? Os que são contra o fascismo, sem tomar posição contra o capitalismo, os que lastimam a barbárie como resultado da barbárie parecem ser pessoas que querem comer sua porção de vitela sem abatê-la. Querem comer a vitela, mas não querem ver o sangue. Contentam-se em saber que o açougueiro lava as mãos antes de trazer a carne. Não são contra as relações de propriedade que produzem a barbárie. São apenas contra a barbárie. Levantam a voz contra ela e fazem isso em países onde existem perniciosas relações de propriedade, mas onde os açougueiros ainda costumam lavar as mãos antes de servir a carne.
Ruidosas acusações contra a barbárie e suas manifestações podem ter efeito durante um curto período, enquanto os ouvintes acreditam que em seus respectivos países tais violências não são possíveis. Certos países são capazes de manter relações de propriedade por meios que se afiguram menos violentos do que em outros. Aí a democracia ainda presta serviços; em outros, apela-se para a violência a fim de garantir a propriedade dos meios de produção.
O monopólio das fábricas, das minas e da terra está criando terríveis situações em toda a parte, embora nem sempre evidentes. A barbárie torna-se visível quando o monopólio pode ser protegido somente com a força bruta. Alguns países que ainda não foram forçados pelos bárbaros monopólios a renunciar às garantias formais de um Estado constitucional, nem tiveram de renunciar a certas vantagens, como a arte, a filosofia, a literatura, alegram-se especialmente em ouvir visitantes de outros países acusar sua pátria por ter renunciado a tudo isso. Disto esperam tirar vantagens nas guerras que são aguardadas. Deve-se afirmar que aqueles visitantes teriam descoberto a verdade, quando proclamam em altos brados: a luta sem quartel contra a Alemanha deve ser feita porque “ela é a verdadeira pátria do mal em nossos tempos, a filial do inferno, o covil do anticristo”? Deveria dizer-se, isso sim, que essas pessoas são tolas, ignorantes, prejudiciais, porque, admitindo tais asneiras como verdade, esse país deveria ser riscado do mapa; todo o país, com todos os seus homens, porque o gás venenoso não localiza os culpados quando mata.
A pessoa leviana, que não conhece a verdade, se expressa em termos gerais, pomposos e imprecisos. Vem fantasiando sobre os alemães, choramingando sobre o mal, romanceando as coisas de tal maneira que o ouvinte não sabe o que fazer. Deve-se resolver não ser alemão? Desaparecerá o inferno se ele for bom? Assim também, pomposamente, expressa aquele palavreado sobre a barbárie como resultado da barbárie. Segundo essa conversa, a barbárie é consequência da barbárie e cessa apenas com a cultura, que é condicionada pela formação intelectual. Tudo isso são palavras vazias que nada dizem a ninguém e nenhuma contribuição oferece à atuação prática.
Essas exposições mostram somente poucos elos de uma série de causas e caracterizam determinadas forças em ação, como forças incontroláveis. Tais exposições são obscuras, nelas se escondem forças geradoras de catástrofes. Põe-se um pouco de luz sobre elas e logo aparecem homens no palco, como causadores de catástrofes. Porque estamos vivendo uma época em que o destino do homem é o homem.
Fascismo não é nenhuma catástrofe da natureza e pode, portanto, ser explicado pela “natureza” do homem. Mesmo as catástrofes da natureza podem ser explicadas de forma digna, quando se apela para a capacidade de luta do homem.
Após o grande terremoto que destruiu Yokohama, podia-se ver fotos em muitas revistas norte-americanas que mostravam as ruínas. A legenda dizia: “steal stood” (o aço ficou de pé). E realmente quem viu somente ruínas, à primeira vista, notou que alguns edifícios haviam escapado intactos. Nas descrições de um terremoto, são da maior importância os pareceres dos engenheiros civis, os quais levam em consideração a movimentação da terra, a força dos impulsos, a intensidade do calor, e conseguem formas de construção capazes de resistir ao tremor. Quem quiser fazer uma análise sobre o fascismo e a guerra, apesar de as grandes catástrofes não serem catástrofes da natureza, tem de argumentar com verdades práticas. Tem de mostrar que as grandes catástrofes são preparadas pelos proprietários dos meios de produção para grandes massas humanas que não os possuem. Se quiserem escrever com êxito a verdade sobre graves situações, deverão escrever de maneira que permita reconhecer suas causas evitáveis. Reconhecendo as causas evitáveis, pode-se lutar contra essas situações.

4) A capacidade de escolher aqueles em cujas mãos a verdade se torna eficiente
Durante centenas de anos, o comércio das publicações no mercado das opiniões e da literatura em geral tornou o escritor despreocupado quanto a seu produto. O escritor tinha a impressão de que seu editor ou intermediário levaria seu escrito a todos. Pensava: eu falo e os que querem ouvir me ouvem. Na realidade, falava. E os que podiam pagar, ouviam-no, mas sua mensagem não era ouvida por todos. E os que a ouviam, não queriam ouvir tudo. Sobre isso já se falou muito, ainda que demasiadamente pouco. Quero somente realçar aqui que do “escrever a alguém” ficou apenas um “escrever”. A verdade, porém, não se pode escrever assim. Ela realmente tem de ser dirigida a alguém que saiba fazer algo com ela. A compreensão da verdade é um processo comum, tanto para os escritores quanto para os leitores. Para poder-se dizer algo bom é preciso ouvir bem e ouvir algo bom. A verdade deve ser dita calculadamente e deve ser ouvida calculadamente. Para os escritores, é da máxima importância saber a quem dizemos e de quem ouvimos. Devemos dizer a verdade sobre a grave situação àqueles que estão em uma péssima situação e deles devemos aprender os pormenores.
Não devemos nos dirigir somente às pessoas de posição política definida, mas também às pessoas que já deveriam ter tomado essa posição em virtude de sua situação. E os ouvintes mudam constantemente. Mesmo os carrascos podem ser abordados, se o pagamento para o enforcamento não está em dia ou se o perigo se tornou demasiadamente grande. Os camponeses da Bavária eram contra qualquer revolução, mas quando a guerra já tinha durado bastante tempo e os filhos, chegando em casa, não encontraram mais ocupação na fazenda, nesse momento, então, puderam ser ganhos para a revolução.
Para o escritor, é importante encontrar o tom da verdade. Geralmente, o que se ouve é um tom muito manso e lamentoso de pessoas que não podem fazer mal sequer a uma mosca. Quem escuta esse tom e está na miséria torna-se ainda mais miserável. Assim falam pessoas que talvez não sejam inimigas, mas que certamente não são companheiros de luta. A verdade é combativa. Não luta somente contra a inverdade, mas também contra certos homens que a divulgam.

5) A astúcia de divulgar a verdade entre muitos
Muitas pessoas, orgulhosas de divulgar a verdade, felizes por tê-la encontrado e talvez um tanto cansadas pelo esforço despendido em dar-lhe forma palpável, na espera impaciente da ação daqueles cujos interesses defendem, acham desnecessário utilizar ainda uma astúcia especial para divulgá-la. Muitas vezes essa atitude tira todo o efeito de seu trabalho. Em todas as épocas, a astúcia tem sido utilizada para divulgar a verdade, sempre que esteve subjugada e oculta. Confúcio modificou velhas lendas chinesas, alterando certas palavras. Quando se dizia que o potentado de Kun havia mandado “matar” o filósofo Wan por ter dito isto ou aquilo, Confúcio escreveu, em lugar de “matar”, “assassinar”. Quando se disse que o tirano fora vítima de um “atentado”, ele escreveu “foi executado”. Com isso, Confúcio abriu lugar para uma nova interpretação da história. Quem em nosso tempo diz “população” em vez de “povo” e diz “propriedade” em vez de “terra” já não dá apoio a muitas mentiras. Tira das palavras sua mística podre. A palavra “povo” quer dizer uma certa unidade, pretende traduzir e dar a entender interesses comuns; portanto, deveria ser utilizada quando se fala de diversos povos, porque só nesses casos poderão existir interesses comuns. A população de um território tem diversos interesses comuns e contrários. Eis uma verdade geralmente suprimida. Quem fala do solo, descrevendo apenas o cheiro da terra e a cor, apoia as mentiras dos que a dominam, porque não depende da fertilidade do chão, nem do amor do homem a terra, nem do seu trabalho, mas especificamente o que conta é o preço do trigo e da mão-de-obra. Os que lucram não são aqueles que plantam o trigo. E o cheiro da terra é completamente estranho ao bolso, o cheiro aí é diferente. Aí, a terminologia mais acertada é propriedade feudal; com isso pode-se enganar menos. Onde existe opressão, a palavra disciplina deve ser substituída pela palavra “obediência”, porque a disciplina também é possível sem o déspota e, consequentemente, tem significado mais nobre que obediência. Melhor que a palavra “honra” é a expressão “dignidade humana”. Com isso não se perde o indivíduo tão facilmente do campo de visão. É bem sabido que espécie de canalha se arroga a defender a “honra” de um povo, e como os saciados arrotam honrarias sobre os que garantem sua fartura com a própria fome. A astúcia de Confúcio ainda hoje pode ser utilizada. Confúcio substituiu interpretações inexatas de acontecimentos nacionais por interpretações exatas. O inglês Thomas More escreveu um livro utópico sobre um país que vivia em estado de perfeita justiça — era um país bem diferente daquele em que ele vivia, mas que se parecia muito com este. A única diferença é que, no país utópico, existia justiça. Lenin, ameaçado pela política do czar e querendo caracterizar a exploração e a opressão na ilha de Sacalina pela burguesia russa, escreveu Japão em vez de Rússia e Coréia em lugar de Sacalina. Os métodos da burguesia japonesa lembraram a todos os leitores os métodos russos em Sacalina, porém o artigo não foi proibido porque o Japão era inimigo da Rússia. O que não pode ser dito hoje sobre a Alemanha poderá ser dito sobre a Áustria. Pode-se enganar o Estado desconfiado por meio de muitas astúcias.
Voltaire lutou contra o credo milagroso da igreja escrevendo um poema galante sobre a virgem de Orleães, no qual descrevia os milagres que devem ter acontecido para que Joana, no meio de um exército, de uma corte e de monges, permanecesse virgem.
Pela elegância de seu estilo, e relatando aventuras eróticas tiradas da vida voluptuosa dos governantes, conduziu-os a renunciar a uma religião que lhes proporcionava os meios de uma vida tão licenciosa. Além do mais, possibilitou que seus trabalhos chegassem de maneira ilegal às mãos daqueles para os quais eram destinados. Seus leitores poderosos estimularam ou toleraram sua divulgação. E o grande Lucrécio acentuava que ele se aproveitava da beleza de seus versos para a divulgação do ateísmo epicurista.
Um alto nível literário pode servir de garantia para uma denúncia. Muitas vezes, porém, causa suspeita. Nesse caso, deverá ser empregada uma forma literária mais acessível. Pode ser feita, por exemplo, na forma do tão desprezado romance policial, contrabandeando em trechos despercebidos descrições embaraçosas. Tais descrições justificam perfeitamente um romance policial. O grande Shakespeare baixou propositadamente seu nível por considerações muito menos importantes quando deixou falar a mãe de Coriolano, ao enfrentar o filho que ia lutar contra sua cidade natal. De maneira propositadamente elementar, queria que Coriolano não fosse detido por razões lógicas nem emocionais que o fizessem desistir de seus planos, mas por certa preguiça que lhe era peculiar.
Um outro exemplo de verdade divulgada por meio da astúcia encontra-se em Shakespeare, no discurso de Marco Antônio diante do cadáver de César. Realça, repetidamente, que Brutus, o assassino de César, é um homem honrado. Mas relata também o delito e faz a descrição desse delito. E é mais expressivo que a descrição do autor. O orador se deixa vencer pelos fatos; e os torna mais eloquentes do que ele mesmo.
Um poeta egípcio, há quatro mil anos, utilizou método parecido. Era uma época de grandes lutas de classe. A classe até então governante defendeu-se a muito custo de sua antagonista: a parte da população até então oprimida. No poema, surge na corte do imperador um sábio chamado à luta contra o inimigo interno. Relata a desordem surgida pelo levante nas camadas mais pobres de maneira longa e impressionante. Seu relatório tem o seguinte aspecto:

Realmente, é assim:
Os nobres vivem cheios de queixa e os pobres cheios de alegria. Cada cidade diz: expulsemos os fortes de nosso meio.
Realmente, é assim:
Os escritórios dos nossos burocratas foram arrombados, e foram retirados seus arquivos; os escravos tornaram-se cavalheiros.
Realmente, é assim:
Não se pode mais reconhecer o filho do respeitado, o filho da senhora torna-se criança da escrava.
Realmente, é assim:
O cidadão está na mó. Os que nunca viram a luz do dia partiram.
Realmente, é assim:
Os cofres de esmolas de ébano foram destruídos. As maravilhosas madeiras de Sesnen foram despedaçadas e transformadas em camas.
Vejam, a residência foi derrubada em uma hora.
Vejam, os pobres do país ficaram ricos.
Vejam, quem não tinha pão agora possui celeiro, e o que está em seu sótão é propriedade de um outro.
Vejam, faz bem a um homem quando não tem comida.
Vejam, quem não tinha centeio agora possui celeiro; quem pediu donativo de centeio agora o está distribuindo.
Vejam, quem não tinha alguns bois, hoje tem rebanho; quem não podia emprestar um rebanho para arar hoje possui rebanhos inteiros.
Vejam, quem não podia ter uma alcova para si possui agora quatro paredes. Vejam, os conselheiros procuram refúgio no celeiro; quem quase não tinha permissão para sentar no muro tem agora cama.
Vejam, quem não construiu o barco para si agora possui navios. Se o proprietário olha para eles, nota que não mais lhe pertencem.
Vejam, os que possuíram vestidos vestem agora trapos, e quem nunca teceu para si possui agora linho fino.
O rico dorme com sede, e quem antes pediu sua graça agora tem cerveja forte.
Vejam, quem nunca entendeu de tocar harpa tem uma harpa; quem nunca cantou agora elogia a música.
Vejam, quem de pobre dormiu sem mulher agora tem damas; quem tinha de olhar seu rosto na água agora tem espelho.
Mesmo os coronéis do país agora estão sem emprego. Aos grandes não se relata mais nada. Quem era mensageiro agora manda um outro...
Vejam, aí estão cinco homens mandados pelo amo; eles disseram: “Faça você mesmo o caminho, nós chegamos.”

É evidente que isso relata um estado de desordem que, para os oprimidos, era bastante desejável. Mesmo assim é difícil apanhar o poeta. Ele está condenando expressamente esse estado de coisas, ainda que de maneira vaga.
Jonathan Swift propôs em um pequeno livro que, para o país chegar à riqueza, se deveria pôr as crianças dos pobres em salmoura e vender a carne. Fez cálculos meticulosos do que poderia ser economizado se não houvesse vacilação em aplicar essa fórmula. Swift se fez de bobo. Defendeu determinada maneira de pensar odiada por ele. Fez isso com muito ardor e meticulosidade em uma questão na qual a baixeza era claramente reconhecida. Todo o mundo poderia ser mais inteligente do que Swift, ou ao menos mais humano. Especialmente aqueles que não haviam analisado certos pontos de vista decorrentes de determinados fatores.
A divulgação do pensamento, não importa em que terreno seja, é sempre útil à causa dos oprimidos. Uma divulgação assim é muito necessária. Em governos que servem à exploração, o pensamento tem cotação baixa, como baixo é considerado tudo o que é útil aos oprimidos. Baixa é a eterna preocupação pela comida, baixo é recusar as honras prometidas pelos “defensores” da pátria, duvidar do “Führer”, ter má vontade para com o trabalho que não sustenta o homem, revoltar-se contra a imposição de tomar atitudes sem sentido. Baixo é pensar. Os famintos são insultados como comilões; os que nada têm para defender são apontados como covardes; os que duvidam dos opressores são acusados de duvidar de suas próprias forças; os que reclamam salários por seu trabalho são chamados de vagabundos etc. Sob tais governos, o ato de pensar, em geral, é considerado baixo e suspeito.
O pensamento não é mais cultivado. E, quando é cultivado, termina perseguido. Mesmo assim, sempre existem campos nos quais, sem perigo de ser apanhado, se pode exercer com êxito o pensamento; são os campos nos quais até as ditaduras necessitam do pensamento. Pode-se provar os êxitos do pensamento nos campos da ciência mi­litar e da técnica.
Assim, o aumento das reservas de lã pela organização e invenção de matérias sintéticas (ersatz) exige raciocínio. A qualidade cada vez pior dos alimentos, o treinamento da juventude para a guerra, tudo isso exige pensamento, o que pode ser descrito. O elogio da guerra, que é um pensamento irrefletido, pode ser astuciosamente evitado. Assim, o pensamento que tem o objetivo de responder à pergunta sobre como levar a guerra da melhor maneira conduzirá a uma outra pergunta: essa guerra tem sentido? Pode-se também propor uma outra pergunta: qual é a maneira de evitar uma guerra sem sentido? Essa pergunta naturalmente é muito difícil de responder em público. Seria possível divulgar esse pensamento de maneira eficiente e atuante? Seria.
Numa época como a nossa, de opressão, em que ainda vigora a exploração de uma parte da população pela parte menor, é necessário, para a continuidade desse domínio, determinado comportamento da população que deve abranger todos os terrenos. Uma descoberta no campo da zoologia, como a do inglês Darwin, conseguiu subitamente pôr em perigo a exploração. Mesmo assim, durante certo tempo, somente a igreja tomou conhecimento disso, enquanto a polícia nada havia percebido. Nos últimos anos, as pesquisas dos físicos determinaram consequências no campo da lógica capazes de abalar toda uma série de dogmas que visam à exploração. O filósofo do Estado prussiano, Hegel, dedicando-se a uma série de pesquisas difíceis no campo da lógica, forneceu a Marx e a Lenin, os clássicos da revolução proletária, métodos de valor inestimável. O desenvolvimento da ciência realiza-se em conexão, porém de maneira desigual, e o Estado não tem capacidade de tudo manter sob seu controle. Os vanguardistas da verdade podem escolher terrenos de luta relativamente pouco vigiados. Tudo depende de um pensamento genuíno, de um pensamento que englobe todas as coisas e fenômenos em seu aspecto passageiro e mutável.
Os dominadores têm antipatia por mudanças acentuadas. Gostariam que tudo ficasse imutável, de preferência por mil anos (2). Seria melhor que a Lua ficasse parada e o Sol não estivesse em movimento. Nesse caso, ninguém mais teria fome, nem exigiria jantar. Quando disparavam seus fuzis, os nazistas não admitiam que os adversários pudessem responder a seus tiros. Uma consideração que acentue bem o transitório é um bom meio para encorajar os oprimidos. Ao mesmo tempo, é importante mostrar aos vitoriosos que, em tudo, em cada coisa, em cada acontecimento, existe uma contradição que se manifesta e cresce inexoravelmente. Tal modo de ver (com a dialética do ensinamento sobre o fluxo das coisas) pode ser assimilado para ser utilizado na análise de acontecimentos, escapando por um tempo à vigilância dos dominadores. Pode-se utilizar em biologia ou química. Mas, igualmente, a história de uma família pode ser relatada assim, sem despertar demasiadamente a atenção. A dependência de cada coisa a uma série de outras, que mudam constantemente, é um pensamento perigoso para a ditadura, e pode aparecer de múltiplas maneiras, sem oferecer pretextos à polícia. Um relato completo sobre um homem que pretendia abrir uma charutaria pode resultar em sério golpe contra a ditadura, se forem bem focalizados os processos e as circunstâncias que o charuteiro tinha de aguentar. Quem refletir um pouco, encontrará o porquê. Os governos que levam as massas à miséria têm de evitar que na miséria essas massas se lembrem do governo. Falam muito do destino, e os governantes têm mais culpa da penúria. Quem pesquisar as causas da penúria será preso antes de poder mostrar sua verdadeira causa. Mas é possível enfrentar o palavreado do governo, mostrando que o destino do homem é preparado pelo homem.
Isso pode ser feito de muitas maneiras. Por exemplo, pode-se contar a história de uma pequena fazenda na Islândia. Toda a aldeia está convencida de que certa maldição pesa sobre ela. Uma camponesa jogara-se dentro do poço, e o camponês seu marido se enforcara. Certo dia, casa-se o filho do camponês com uma moça que trouxe como dote algumas terras. A maldição desaparece da fazenda. A aldeia não chega a uma conclusão comum sobre essa mudança feliz. Uns dizem que vem da alegre natureza do jovem camponês. Outros, porém, dizem que foram somente as terras trazidas pelo casamento que colocaram a fazenda em condições de sobreviver. Mesmo em um poema que retrata a natureza pode-se alcançar algo quando se liga à natureza a obra feita pelo homem.
É necessário usar a astúcia para divulgar a verdade.

Conclusão
A grande verdade de nossa época (cujo conhecimento não basta, mas sem o qual não se achará outra verdade de importância) é que nosso continente submerge na barbárie, por querer manter pela força as atuais relações de propriedade dos meios de produção. Qual a valia em escrever algo corajoso, revelador do estado de barbárie em que estamos afundando, se não definimos claramente porque chegamos a ele?
Devemos denunciar que torturas são perpetradas para que as relações de propriedade sejam mantidas. Naturalmente, dizendo isso, perdemos muitos amigos, que são contra as torturas porque acreditam na possibilidade de manter as relações de propriedade sem torturas (o que não corresponde à verdade).
Mais ainda: devemos dizer a verdade sobre o estado bárbaro em que se encontra nosso país para possibilitar aquilo que conduz ao desaparecimento desse estado. Isto é, devemos dizer como podem ser alteradas as relações de propriedade dos meios de produção mesmo participando dos lucros. E devemos agir com muita astúcia
Todas as cinco dificuldades devem ser solucionadas ao mesmo tempo, porque não podemos pesquisar a verdade sobre o estado de barbárie sem pensar ao mesmo tempo em suas vítimas. Quando evitamos os acessos de covardia, devemos procurar as verdadeiras conexões para aqueles que estão dispostos a aplicar os conhecimentos. Devemos também pensar e entregar-lhes a verdade, de maneira que ela possa tornar-se uma arma em suas mãos, astuciosamente, para não ser descoberta e anulada pelo inimigo.
Exige-se muito, quando se exige do escritor que escreva a verdade.


NOTAS
(1) Escrito em 1934 para ser divulgado na Alemanha hitlerista. Publicado ilegalmente na revista Nosso Tempo, editada pela União dos Escritores Alemães, em Paris. Tradução de Florian Geyer para a revista Civilização Brasileira (São Paulo, Brasiliense, n. 5-6, mar. 1966). Impresso no Versuche 9, 1949.

(2) O autor refere-se à declaração do Partido Nazista quanto à permanência do “Grande Reich”, estimada por Hitler em mil anos, após o Congresso do Partido, em Nuremberg. (N. T)


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Páginas:       408








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Leituras críticas de dramaturgia moderna. Críticos estadunidenses fundamentais (Gassner, Bentley e Carlson). Por Maria Sílvia Betti


Leituras críticas de dramaturgia moderna.
Críticos estadunidenses fundamentais (Gassner, Bentley e Carlson). 
Por Maria Sílvia Betti.

Aula de 24/03/2020

24 de março

Tema da aula
 - Introdução, contextualização e problematização da proposta da disciplina de pós-graduação intitulada LEITURAS CRÍTICAS DE DRAMATURGIA MODERNA. CRÍTICOS ESTADUNIDENSES FUNDAMENTAIS (GASSNER, BENTLEY E CARLSON), oferecida no Programa de Estudos Linguísticos e Literários em Inglês da FFLCH-USP, Departamento de Letras Modernas, Linha de Pesquisa Contatos Literários.

Maria Sílvia Betti (docente)


Link de acesso à página da disciplina no Moodle:



OBJETIVOS:
Introduzir e discutir uma seleção de obras críticas relevantes para a pesquisa analítica e crítica do texto dramatúrgico em sua relação com as concepções cênicas que lhe são inerentes.
Familiarizar os alunos com discussão crítica de textos teatrais representativos das questões formais e teóricas examinadas nos trabalhos discutidos.

JUSTIFICATIVAS: O estudo do texto dramatúrgico e das concepções cênicas a que ele se liga é imprescindível para o embasamento de pesquisas em diversas áreas de Literatura Dramática, de Artes Cênicas e de Dramaturgia. Os trabalhos críticos apresentados e discutidos no programa são pontos de referência nessas áreas, e permitem a colocação de questões essenciais para um trabalho analítico aprofundado.

CONTEÚDO (EMENTA):
Aula 1: Introdução, contextualização e problematização da proposta.
Aulas 2 e 3: John Gassner: contextualização de seu trabalho crítico. Form and idea, de John Gassner. Discussão de excertos.
Aula 4: Mestres do Teatro II, de John Gassner. Discussão de excertos.
Aula 5: Eric Bentley: contextualização de seu trabalho crítico. The theatre of commitment. Discussão de excertos.
Aula 6: Eric Bentley. O dramaturgo como pensador. Discussão de excertos.
Aula 7: Eric Bentley. The theory of the modern stage. Discussão de excertos.
Aula 8: Marvin Carlson. contextualização de seu trabalho. The Theory of the modern stage: an introduction to modern theatre and drama. Discussão de excertos relacionados à segunda metade do século XX.
Aula 9. Marvin Carlson. Performance. A critical introduction. Discussão de excertos.
Aula 10. Marvin Carlson. Post dramatic theatre and post dramatic performance. Discussão do texto do ensaio.
Aula 11: críticos estadunidenses nos Cadernos do Tablado. Discussão de uma seleção de artigos tomados a diversos números dos Cadernos.
Aula 12: balanço do curso e reflexões de encerramento.

A proposta deste curso é estudar como e com que perspectivas a dramaturgia moderna é abordada e discutida nos trabalhos de três críticos estadunidenses: John Gassner [1902-1967], Eric Bentley [1916-] e Marvin Carlson [1935-].
Por dramaturgia entende-se o conjunto de textos escritos para o teatro em suas diferentes configurações formais (tragédias, comédias, dramas, melodramas, etc.). Por moderna entende-se a dramaturgia escrita entre o final do século XIX e o final da segunda metade do século XX.
A dramaturgia interessa a todos os que desejam investigar de que forma o teatro representou, em seus textos, as transformações sociais, econômicas e culturais à sua volta.
O texto não é a instância única e nem a principal de expressão no teatro, como se sabe. Mas o seu apagamento do campo de estudos de teatro tem causado sérios danos à formação da sensibilidade pensante de várias gerações de pesquisadores e de intérpretes. No contexto atual, as práticas teatrais não dramatúrgicas tendem a prevalecer tanto nos programas de estudo acadêmico como em grande número encenações em São Paulo, o que ocorre por motivos diversos e que não nos cabe neste momento específico do curso discutir.
Na FFLCH especificamente o estudo de dramaturgia existe dentro de disciplinas das áreas de Teoria Literária, Literatura Brasileira e de algumas das literaturas estrangeiras. Isso ocorre como resultado do trabalho desenvolvido por Décio de Almeida Prado [1917-2001], crítico, historiador do teatro brasileiro e professor que, entre 1966 e 1984, ministrou cursos e publicou obras que formaram várias gerações de docentes e pesquisadores.
No momento em que estamos, em 2020, grande parte dos estudos teórico-críticos de dramaturgia na FFLCH são norteados pela abordagem teórica de Peter Szondi, autor de “Teoria do Drama Moderno 1880-1950”.
Estudioso das configurações estilísticas na dramaturgia, Szondi examinou os processos pelos quais os dramaturgos, nos períodos de grandes transformações da sociedade à sua volta, haviam sido obrigados a criar estratégias compositivas que lhes permitissem continuar escrevendo dentro dos preceitos vigentes, mas sem deixar de tratar do que era necessário e emergente. Szondi observa e analisa os “ajustes” formais que foram tendo que ser feitos nesse sentido pelos dramaturgos dessas épocas de transformações históricas entre 1880 e 1950, e dedica particular atenção às mudanças estilísticas observadas no campo do expressionismo, da revista política de Erwin Piscator, do teatro épico de Bertolt Brecht, do conceito de “montagem”, da impossibilidade flagrada na forma dramática utilizada por Pirandello, do surgimento do monólogo interior e do emprego do “eu épico” como diretor de cena, recurso utilizado pelo dramaturgo estadunidense Thornton Wilder [1897-1975] na peça “Nossa Cidade” (1938).
Particular atenção é dedicada por Szondi à análise de peças de três autores estadunidenses: Eugene O’Neill [1888-1953], Arthur Miller [1914-2005] e o já mencionado Thornton Wilder. Isso não ocorre por acaso: em peças desses autores, aspectos então historicamente recentes dos mecanismos de desagregação da individualidade, da alienação do sujeito anônimo dentro de uma sociedade massificada e da exploração de sua força de trabalho se apresentavam com configurações estilísticas dignas de nota.
O contexto teatral estadunidense é radicalmente diferente do alemão, do francês e do inglês. Nos Estados Unidos, desde os primórdios da colônia e da república recém-fundada, o teatro era fruto de práticas comerciais e empresariais. Era empreendimento comercial e era ofício. Era basicamente business. Na época da Grande Depressão econômica, na década de 1930, o governo de Franklyn Delano Roosevelt teve que criar um projeto de âmbito federal (o Federal Theatre Project) para salvar da crise milhões de trabalhadores do mundo dos espetáculos, pois estes representavam um quinhão considerável da força de trabalho do país nesse período.
Obviamente, nesse contexto os dramaturgos precisaram lançar mão de recursos compositivos específicos, já que estavam no epicentro do mundo capitalista e numa sociedade que tinha raízes históricas diferentes das dos países europeus.
Assim, o teatro estadunidense, durante a primeira metade do século XX, foi desenvolvendo feições que passaram a diferenciá-lo do teatro praticado em outros países, seja pelo fato de que os Estados Unidos tinham se tornado a nação econômica e militarmente hegemônica no plano internacional, seja pelo gigantesco crescimento de sua indústria de cinema e mídia e por seu imenso poder de construir e de vender imagens.
Ao longo desse período, dois nomes surgidos no campo da crítica, entre os anos 1920 e 1930, haviam se consolidado como referências tanto para diretores e encenadores como para estudiosos do teatro nos Estados Unidos: um era o de John Gassner [1903-1967], húngaro de nascimento (como Szondi) e radicado nos Estados Unidos desde 1911, e o outro era o de Eric Bentley [1916-], inglês de nascimento mas radicado nos Estados Unidos onde seguiu carreira acadêmica. Ambos, com diferentes trajetórias e perspectivas de trabalho, viriam a se tornar autores de obras de historiografia e análise crítica de dramaturgia que exerceram importante papel tanto por suas abordagens como pela ampla circulação editorial que tiveram em diferentes países, inclusive no Brasil.
Gassner era crítico teatral e curador de repertório (play reader) do Theater Guild, um importante núcleo de modernização dramatúrgica nos anos 1940 nos Estados Unidos, e trabalhou como docente temporário convidado na Universidade de Columbia, em New York, precisamente no período em que Augusto Boal lá estagiou, no início dos anos 1950.
Bentley, por sua vez, traduziu Brecht para o inglês, além de ter sido seu interlocutor e divulgador de seus trabalhos e escreveu um dos mais importantes livros sobre o engajamento no teatro.
Parte considerável da obra crítica de Gassner e de Bentley trata precisamente da dramaturgia do período estudado por Szondi em “Teoria do Drama Moderno”, mas as abordagens de um e de outro enveredam, necessariamente, por caminhos conceituais e metodológicos diversos. Gassner ministrava concorridas oficinas de estudo frequentadas por aspirantes a dramaturgo e por atores e atrizes. Foi por indicação sua que Augusto Boal, em seu período de estágio acadêmico em New York, teve carta branca para assistir oficinas de interpretação no disputadíssimo Actors’ Studio.
Bentley, por sua vez, exerceu papel importante para a recepção e os estudos de Brecht nos Estados Unidos, sem dúvida um considerável desafio, mas acima de tudo uma contribuição importante para o aporte das concepções brechtianas de pensamento teatral num contexto que lhes era tão distinto e em alguma medida tão adverso como o da sociedade estadunidense. Brecht havia vivido nos Estados Unidos entre 1941 e 1947, ano em que voltou para a Alemanha logo após prestar depoimento, sob intimação, perante o Subcomitê de Atividades Antiamericanas do Senado presidido pelo republicano Joseph McCarthy. Tensa e árdua havia sido sua vida de trabalho criador nos Estados Unidos nos anos em que lá viveu, e que se encontram registrados em um dos volumes de seus “Diários de Trabalho”.
Se tanto Gassner como Bentley haviam abordado em seus trabalhos críticos da dramaturgia de que trata Szondi, em “Teoria do Drama Moderno”, como seria a experiência de estudo de alguém que se interessasse em olhar para essa dramaturgia tomando por base os trabalhos deles dentro do contexto estadunidense? Que recortes temáticos e que ferramentas expressivas lhes pareceram dignas de nota, e por que razões? Que perspectiva historica seus trabalhos construíram nos Estados Unidos, um país que era historicamente novo, como o Brasil, mas que se caracterizava pela enorme contradição de ser hegemônico por sua economia, poder militar e indústria cultural, mas de até certo ponto dependente e importador de ideias?
Uma das questões que prontamente ocorriam a partir dessa pergunta, dizia respeito justamente ao épico: Szondi vê o épico como configuração expressiva que supera o dramático, o que o leva, nas observações finais de seu livro, a dizer, como ressalva necessária, que a historia da dramaturgia moderna ainda não tinha chegado ao seu último ato.
Ora, vista a partir dessa premissa (a de que o épico é a via de superação expressiva do dramático), a maior parte da dramaturgia estadunidense moderna teria que ser posta de lado por ser supostamente superada ou desprovida de interesse, já que não é o épico a estrutura com que se configura parte considerável das peças que formam o que poderíamos chamar de um cânone dramatúrgico moderno dos Estados Unidos. Seria como se deixássemos implícita a ideia de que a sociedade estadunidense, em que as forças produtivas capitalistas haviam atingido seu grau máximo de desenvolvimento, de exploração do trabalho e de alienação, não havia conseguido produzir uma única forma de expressão dramatúrgica que representasse os processos que lhe eram inerentes.
 É o próprio livro de Szondi que desmente esse entendimento: as peças de O’Neill, Miller e Wilder não lhe teriam interessado se ele não tivesse detectado nelas mecanismos estilísticos dignos de nota e dotados de especificidade representativa para seu estudo.
Sendo assim, uma nova pergunta se colocava necessariamente: de que forma Gassner e Bentley, críticos que atuaram tão centralmente dentro do mesmo contexto ao qual pertenciam esses dramaturgos estadunidenses, tratariam das transformações da dramaturgia moderna estudada por Szondi? Essa pergunta, nascida da curiosidade analítica, se tornou o gatilho propositivo do programa deste curso.
O trabalho crítico guarda sempre em si, de alguma forma, as marcas de seu tempo e de suas circunstâncias, e com isso faz surgirem, posteriormente, percepções que contrastam com as de outros momentos históricos e contextos. Ao revelarem em suas entrelinhas desvios ou lacunas de análise, trabalhos críticos significativos de outros períodos e contextos podem tornar flagrantes formas de percepção e de entendimento atuais, colocando em relevo as suas raízes históricas.
Tanto Gassner como Bentley foram extremamente prolíficos, e seus trabalhos constituem um conjunto extenso e representativo de abordagens que se revelam promissoras para o que se deseja estudar no programa proposto. Para essa finalidade foram tomados os seguintes livros, dos quais serão selecionados para leitura e discussão excertos previamente indicados: de John Gassner, “Form and Idea” e “Masters of Theatre II”, e de Eric Bentley, “The playwright as thinker” e “A experiência viva do teatro”.
Um outro lado da questão se apresentava, porém, no tocante ao contexto dramatúrgico posterior tanto ao de Szondi, que faleceu em 1971, como ao de Gassner (falecido em 1967) e de Bentley, em que pese a extraordinária longevidade deste: ficaria de fora do programa a dramaturgia das décadas finais do século XX? No contexto dos estudos teatrais contemporâneos, as obras teóricas do francês Jean-Pierre Sarrazac [1946-] e do alemão Hans Thies Lehman [1944-] mostravam ser, na FFLCH e fora dela, referências importantes para o campo de estudos de teatro.
Sarrazac havia escrito “O futuro do drama”, resultado de sua tese de doutoramento na Sorbonne nos anos 1970, trabalho que viria a ganhar tradução em Portugal em 2002. O fulcro de sua abordagem era a observação do processo que ele chamou de rapsodização do drama, numa perspectiva de análise que divergia e criticava a de Szondi.
Em que pese a forte ressonância das concepções de Sarrazac para o campo de estudos de teatro dessas últimas décadas do século XX, foi o livro de Lehman, “O teatro pós-dramático”, lançado em edição brasileira em 2007 com prefácio de Sérgio de Carvalho, que se revelou como fortemente determinante dos estudos e das práticas cências experimentais realizadas na USP e em seus entornos teatrais.
Lehman partia da superação histórica da forma do drama colocando em foco as modalidades de teatro contemporâneas que se apoiavam em outros parâmetros que não os do texto e os da ação cênica simbólica e mimética.
O conceito de “pós-dramático” ali introduzido aplicava-se às poéticas caracterizadas pela fragmentação da narrativa e pela desconstrução da mimese, e teve rápida acolhida tanto no âmbito acadêmico como nos meios ligados à criação teatral e à encenação. Uma inegável afinidade ligava-o ao conceito de “pós-moderno”, formulado nos anos 1990 e prontamente acatado por setores hegemônicos da crítica literária e artística. Esse aspecto, sem dúvida, contribuiu para a rápida assimilação do “pós-dramático” como perspectiva de atualização teórica amplamente acolhida nos estudos de teatro no Brasil. Em seu livro Lehmann apontava a tendência do teatro contemporâneo de absorver e incorporar elementos da arte performática e de rituais e cerimônias de diferentes naturezas, e enfatizava o fato de, nas modalidades ditas “pós-dramáticas” de teatro, o trabalho “não mais aspirar à expressão de uma totalidade”.
Por um lado, sua abordagem tratava como instigantes e profícuas as poéticas que se apoiavam na descontinuidade e nas fraturas e lacunas da representação simbólica; por outro, subentendia como obsoletas e equivocadas as poéticas que procuravam estabelecer conexões, analisar perspectivas de conjunto e historicizar a relação do teatro com a matéria sociopolítica simbolicamente representada por meio dele.
Se o programa proposto para o curso se dispunha a tratar de vozes críticas representativas no contexto estadunidense, quem ou qual seria o autor que ofereceria material para que não se deixasse de olhar, sob a perspectiva da dramaturgia, também justamente para o período mais próximo do contemporâneo?
O trabalho de Marvin Carlson [1935-], teórico e professor da City University of New York, forneceu a resposta por meio de um extenso conjunto de trabalhos relacionados ao assunto. Dentre eles constava com destaque “Theories of the theater. A historical and critical survey from Greeks to the present”, publicado nos Estados Unidos em 1995 e lançado em tradução brasileira em 1997 pela Editora da UNESP, mas constava também um ensaio de 2015 publicado na “Revista Brasileira de Estudos da Presença”, e que tinha o instigante título de “Teatro Pós-dramático e Performance Pós-dramática”.
Embora outros trabalhos da extensa obra crítica e teórica de Carlson também estivessem disponíveis para o leitor brasileiro, esses dois — e particularmente esse último — dialogavam de forma interessante com os estudos das configurações da dramaturgia numa era histórica caracterizada por sua assim chamada superação, e sem abstrair o contexto da dramaturgia e do teatro estadunidenses.
Completava-se, assim, o terceiro elo da corrente para a proposta do programa deste curso.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

John Gassner

Form and idea. The Dryden Press; First Edition edition (1956).
Mestres do teatro II. [tradução e organização Alberto Guzick e J. Guinsburg]. São Paulo: Perspectiva, 1996.

Eric Bentley

The theatre of commitment, and other essays on drama in our society. New York: Atheneum, 1967.
O teatro engajado / Eric Bentley; tradução de Yan Michalski -- Rio de Janeiro: Zahar, 1969.
O dramaturgo como pensador: um estudo da dramaturgia nos tempos modernos: Wagner, Ibsen, Strindberg, Shaw, Pirandello, Sartre, Brecht / Eric Bentley; tradução de Ana Zelma Campos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
The Theory of the modern stage: an introduction to modern theatre and drama / edited by Eric Bentley. London: Penguin, 1992.

Marvin Carlson

Teorias do teatro: estudo histórico-crítico, dos gregos à atualidade / Marvin Carlson. São Paulo: Ed. da UNESP, 1997.
Performance: a critical introduction / Marvin Albert Carlson . New York: Routledge, 2004.
Performance: uma introdução crítica / Marvin Carlson; tradução Thais Flores Nogueira Diniz, Maria Antonieta Pereira. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2010.
Postdramatic Theatre and Postdramatic Performance. Rev. Bras. Estud. Presença, Porto Alegre, v. 5, n. 3, p. 577-595, Sept./Dec. 2015.
Teatro Pós-dramático e Performance Pós-dramática. Rev. Bras. Estud. Presença, Porto Alegre, v. 5, n. 3, p. 577-595, set./dez. 2015.


Site da Internet: Acervo online dos Cadernos do Tablado. http://otablado.com.br/cadernos


Obs. Outros trabalhos críticos e teóricos serão indicados ao longo da disciplina.





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Conheça também:

de Maria Sílvia Betti (organizadora da edição de Rasga Coração)

Dramaturgia Comparada Estados Unidos / Brasil: Três estudos
Autora: Maria Sílvia Betti
Editora: Cia. Fagulha
ISBN 13:       978-85-68844-03-8
Páginas:       360





Dramaturgia Comparada Estados Unidos / Brasil: Três estudos – Maria Sílvia Betti



e-mail: 
editora@ciafagulha.com.br

WhatsApp: (11) 95119-8357



Ingrid, Brueghel e o teatro de figuras alegóricas. Por Maria Sílvia Betti


Ingrid, Brueghel e o teatro de figuras alegóricas [1]. Por Maria Sílvia Betti [2]


Landscape with the fall of Icarus.

Paisagem com a queda de Ícaro.



De acordo com Brueghel
quando Ícaro caiu
era primavera

um fazendeiro arava
seu campo
o esplendor inteiro

do ano
acordara formigando
perto

da beira do mar
concentrado
em si mesmo

suando ao sol
que derreteu
a cera das asas

desapercebido
perto da orla
deu-se

um inaudível mergulho
era Ícaro
se afogando 

(Paisagem com a queda de Ícaro, tradução da autora) [3]




Em 1962 o poeta estadunidense William Carlos Williams [1883-1963] publicou o poema acima, Landscape with the fall of Icarus, que originalmente integrava uma série intitulada Pictures from Brueghel and Other Poems [4]. No texto Williams evocava o quadro de Brueghel [5] de título homônimo, assinalando a continuidade imperturbável e ininterrupta da vida, que não se crispava e nem se suspendia diante da queda de Ícaro [6]. Dele, na tela, apenas as pernas podiam ser vislumbradas num pequeno e quase imperceptível mergulho no canto direito inferior.

Ao contrário da composição pictórica de outros pintores, que antes e depois de Brueghel também trataram do tema, o mestre flamengo configurou seu quadro como um desafio ao olhar de quem o observa: a menção ao personagem mítico e sua queda condiciona o olhar a percorrer a tela ponto a ponto à procura da imagem. Esta é laboriosamente localizada, por fim, em posição secundária e sem destaque. Não há nela qualquer grandiosidade ou centralidade: a queda, na verdade, já ocorreu, e apenas o perscrutador atento conseguirá se dar conta de que, em meio ao esplendor da natureza e à continuidade da labuta do lavrador, o personagem lendário caiu sem impacto heroico e já foi parcialmente engolido pelo mar. A materialidade da subsistência prevalece e a pujança cromática da cena, num grande plano aberto, permite que se veja não só o camponês com seu arado, mas também o mar, barcos navegando e o horizonte em que o céu e as águas se encontram. Ícaro está sendo tragado pelas ondas, mas esse é apenas um flash momentâneo, pois tudo o mais, na sequência, seguirá seu rumo, numa celebração implícita e processual de tudo o que, ao contrário de Ícaro, permanece e vive.

A pintura de Brueghel é referência conceitual importante dentro do trabalho artístico e pedagógico de Ingrid Dormien Koudela. Poucos outros pesquisadores e formadores na área de estudos de teatro terão conseguido fazer uso tão consistente e tão funcional de uma referência como ela nas sucessivas abordagens que faz, em seus escritos teóricos e suas práticas pedagógicas, do repertório de procedimentos compositivos e de imagens do pintor.

Ingrid interessa-se por Brueghel por encontrar em seus quadros e gravuras elementos condizentes com o uso teatral de figuras alegóricas, não psicologizadas e não inseridas em narrativas apoiadas em relações de causa e efeito. Interessam-lhe os processos associativos sugeridos a partir de imagens, e interessa-lhe criar uma motivação lúdica que articule as camadas de imagens represadas no consciente e no subconsciente de quem as contempla. Brueghel proporciona a Ingrid estímulos significativos para ativar todos estes elementos de percepção, e estes são o fundamento do teatro de figuras alegóricas que tanto a apaixona. Tal como na pintura do artista, os elementos figurados devem, para ela, ser desierarquizados entre si: o procedimento narrativo é inerente ao próprio ato da perscrutação e inseparável dele. Como no quadro ao qual alude o poeta Williams, é a percepção que irá atuar como desencadeadora potencial dos mecanismos associativos.

O papel das imagens dentro da concepção bruegheliana de Ingrid é central, e a decifração delas pode trazer potencialmente consigo a possibilidade brechtiana do estranhamento. Estranhar liga-se estreitamente a historicizar, e é do estudo brechtiano intitulado O efeito de estranhamento nas pinturas narrativas de Peter Brüghel [7], o Velho, que Ingrid extrai a ideia da transitoriedade das pessoas e dos processos como elementos capazes de induzir percepções historicizadoras dentro desse teatro de figuras alegóricas que preconiza. Esse mesmo estudo de Brecht fornece-lhe, como ela própria ressalta, elementos capazes de alimentar a invenção pantomímica, inspiradora em potencial do gestus e elemento imprescindível da poética cênica brechtiana.

O material pictórico de Brueghel ilumina, paralelamente, uma outra faceta conceitual central do teatro de que trata Ingrid: a do chamado pós-dramático tal como entendido pelo teórico Hans Thies Lehmann [8] e praticado pelo dramaturgo Heiner Müller [9]. Contemplados a partir da perspectiva deles, os quadros e gravuras de Brueghel são compatíveis com a figuração cênica de uma realidade vista como fragmentária, inconclusiva e povoada de impossibilidades.

As cenas pictoricamente retratadas nas telas e gravuras brueghelianas desencadeiam estímulos para a imaginação alegorizante, para mecanismos associativos, para a expressão e a percepção de realidades autônomas dotadas de regularidades espaciais e temporais próprias, e que com isso criam um trânsito lúdico entre as camadas do consciente e do subconsciente. Fragmentos extraídos da cultura popular e do imaginário medievais povoam o espaço cênico com ruínas diversas, com figuras despsicologizadas, com estímulos perceptivos de amplo espectro.

Não se caracteriza com isso nenhuma forma de práxis, como observa Ingrid, e nem se articula uma linha de trabalho disposta a agir sobre as consciências ou a politizá-las: cria-se, porém, um campo diversificado e múltiplo de instauração cênica no plano do subconsciente, flagrado em sua relação com o pensar conceitual. No espaço potencial assim constituído, Ingrid vislumbra a latência de processos de criação e percepção em que o político, em alguma medida, está latente e pode potencialmente encontrar força para se manifestar. É do material pictórico de Brueghel que ela extrai o repertório processual e figurativo com que fundamenta, com tanta paixão e consistência, a proposta de um teatro de figuras alegóricas.



BIBLIOGRAFIA

KOUDELA, Ingrid. A cidade como alegoria. Disponível em: <http://seer.unirio.br/index.php/opercevejoonline/article/view/526/468>. Acesso em: 20 nov. 2019.

_______. Leitura das pinturas narrativas de Peter Brüghel, o velho. Ingrid Koudela (ECA/USP) IV Reunião Científica de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas. GT: Pedagogia do Teatro & Teatro na Educação.

_______. Teatro de figuras Alegóricas. Universidade de São Paulo/UNISO – Universidade de Sorocaba
Palavras-chave: encenação contemporânea; pedagogia do espectador

WILLIAMS, William Carlos. Collected Poems: 1939-1962, Volume II, New Directions Publishing Corp. 1962.








[1] Este artigo é a versão revista do texto Ingrid, Brueghel e o Teatro de figuras alegóricas (originalmente publicado em Ingrid Koudela: o Teatro como alegoria.Org. Igor Almeida, SESC, 2018).

[2] Maria Sílvia Betti é Professora Livre Docente do Departamento de Letras Modernas da FFLCH-USP, Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês. Orienta também no Departamento de Artes Cênicas da ECA-USP.


Livros:

Autora de Dramaturgia Comparada Estados Unidos/Brasil. Três estudos (Cia. Fagulha, 2017 – www.ciafagulha.com.br), Oduvaldo Vianna Filho (EDUSP/FAPESP, 1997).


* Tradutora de O método Brecht, de Fredric Jameson (Vozes, 1998), depois relançado em edição revista com o título Brecht e a questão do método (Cosac & Naifiy), 2013. 
* Organizadora, prefaciadora e autora dos textos de apresentação de Rasga Coração (Temporal, 2018) e Papa Highirte (Temporal, 2019), ambos de Oduvaldo Vianna Filho. 
* Organizadora e prefaciadora de Patriotas e traidores. Escritos anti-imperialistas de Mark Twain (Fundação Perseu Abramo, 2003), O Povo do Abismo. Fome e miséria no coração do Império Britânico, de Jack London (Fundação Perseu Abramo, 2004). 
* Prefaciadora de Mr. Paradise e outras peças em um ato (´É Realizações, 2011) e 27 Carros de algodão e outras peças em um ato (É Realizações, 2013) ambos de Tennessee Williams. 


Artigos recentes:

* Teatro e movimentos sociais na cidade de São Paulo: um recorte comentado. (In Blog da Cia. Fagulha). Disponível em: <https://blogdaciafagulha.blogspot.com/>.

* O impulso e o salto: Boal em Nova Iorque (1953-1955). (In Blog da Cia. Fagulha).


* Papa Highirte, de Oduvaldo Vianna Filho: apontamentos de análise dramatúrgica (In Blog da Cia. Fagulha). Disponível em: <https://blogdaciafagulha.blogspot.com/2019/01/papa-highirte-de-oduvaldo-vianna-filho.html>.


[3] Texto original disponível em: <http://www.english.emory.edu/classes/paintings&poems/williams.html>. Acesso em: 20 nov. 2019. Landscape with the fall of Icarus:

According to Brueghel
when Icarus fell
it was spring

a farmer was ploughing
his field
the whole pageantry

of the year was
awake tingling
with itself

sweating in the sun
that melted
the wings' wax

unsignificantly
off the coast
there was

a splash quite unnoticed
this was
Icarus drowning

[4] Pinturas de Brueghel e outros poemas.

[5] Pieter Brueghel, o Velho. Pintor e gravurista flamengo. [Nascimento entre 1525 e 1530 (data incerta), e falecimento em 1569].

[6] Personagem da mitologia grega conhecido por sua tentativa de deixar a ilha de Creta voando com asas de cera, tentativa que culminou com sua queda e morte nas águas do mar Egeu.

[7] Esta foi a grafia utilizada neste texto.

[8] [1944-]. Crítico e estudioso alemão de Teatro e Dramaturgia, autor de Teatro pós-dramático, publicado na Alemanha em 1999 e no Brasil em 2008: Teatro pós-dramático. Tradução de Pedro Süssekind. Apresentação de Sérgio de Carvalho. São Paulo: Cosac & Naify.

[9] [1929-1995]. Dramaturgo alemão autor de “Hamletmáquina”, “Medeamaterial”, “A missão” e “Quarteto”, entre outros trabalhos.



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Conheça também:

de Maria Sílvia Betti (organizadora da coleção Oduvaldo Vianna Filho pela Editora Temporal)

Dramaturgia Comparada Estados Unidos / Brasil: Três estudos
Autora: Maria Sílvia Betti
Editora: Cia. Fagulha
ISBN 13:       978-85-68844-03-8
Páginas:       360



Dramaturgia Comparada Estados Unidos / Brasil: Três estudos – Maria Sílvia Betti



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